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Resenha | Uma Mulher No Escuro

Resenha | Uma Mulher No Escuro

Raphael Montes já provou que sabe escrever livros que misturam terror e suspense de uma maneira que prende a atenção dos leitores até o final. Dessa vez, ele vai mais além com Uma Mulher no Escuro, um thriller psicológico que explora as facetas mais sombrias da mente humana e mostra como cada pessoa reage de uma forma a um trauma terrível.

Quando Victoria Bravo tinha apenas quatro anos, sua família foi brutalmente assassinada. Vinte anos depois, ela se tornou uma mulher reclusa com grandes dificuldades para se relacionar com outras pessoas, seja afetiva ou amorosamente. Seus únicos relacionamentos são com Arroz, um amigo peculiar que ela conheceu pela internet; com o dr. Max, seu psiquiatra, e com Georges, um escritor que está tentando conquistá-la. Contudo, o passado retorna para assombrá-la e a ameaça do assassino de seus familiares torna-se mais presente do que nunca, obrigando Victoria a mergulhar de cabeça na história de sua própria vida e desenterrar fatos assustadores.

Apesar da brutalidade e violência características da narrativa de Raphael, o verdadeiro terror de Uma Mulher no Escuro se esconde no psicológico da protagonista e de seu algoz. A insegurança de Victoria e sua desconfiança com relação às pessoas que a cercam deixam os leitores em estado de alerta junto com ela. Para reforçar a sensação de perigo e a iminência de uma catástrofe, temos acesso a interlúdios onde acompanhamos o ponto de vista doentio do matador.

Para que um romance assim consiga envolver o público é necessário que a construção dos personagens seja feita de forma profunda. E é justamente isso que percebemos ao analisar Victoria. Ao mesmo tempo em que ela mora sozinha e leva uma vida adulta, ainda conserva hábitos infantis como assistir a desenhos e dormir com seu inseparável bicho de pelúcia, como uma resposta à destruição da sua inocência. Os bloqueios e as limitações que o trauma lhe causaram são tão nítidos que achamos fascinante o efeito que um episódio chocante pode ter sobre alguém. O mesmo se aplica ao seu antagonista, cuja complexidade foi igualmente explorada através de relatos em primeira pessoa desde a infância até a vida adulta.

Um contexto tão sombrio precisa de um cenário igualmente soturno. Então, somos apresentados à cidade do Rio de Janeiro por um ângulo sujo, onde as ruas são barulhentas, as pessoas não são confiáveis e há sempre alguém à espreita. Essa não é a primeira obra de Raphael ambientada na “Cidade Maravilhosa”, assim como outros autores já a abordaram de um modo pouco lisonjeiro, como Gabriel Tennyson em Deuses Caídos e Maurício Limeira em O Adversário.

Ao longo da trama, somos levados a suspeitar de diversas pessoas, entretanto as possibilidades são poucas, portanto não chega a ser surpreendente a identidade do perseguidor de Victoria. O grande diferencial são as reviravoltas que vão ocorrendo até o momento da revelação e o real motivo por trás de todas as ações do assassino, algo realmente perturbador e inesperado.

Levando em consideração tudo o que foi dito, a protagonista é uma mulher no escuro de várias maneiras diferentes, seja como refém de seus próprios medos, como uma criança de quem se esconde a verdade cruel ou como uma mulher enganada e mantida à sombra de outros indivíduos. E é desse jeito que Raphael Montes nos apresenta um de seus trabalhos mais bem estruturados em cima da mente humana.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.