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Resenha | Sobre Deuses e Seres Rastejantes – A Balada de Gundrum

Resenha | Sobre Deuses e Seres Rastejantes – A Balada de Gundrum

A Literatura Fantástica e o RPG muitas vezes estão interligados, de modo que um influencia o outro no desenvolvimento da trama e nas características de seus personagens. Dessa relação íntima entre livros e jogos, nasceu a fantasia Sobre Deuses e Seres Rastejantes – A Balada de Gundrum, do escritor Piaza Merighi.

A história se passa em Aldaman, uma terra hostil abandonada pelos deuses, onde tribos humanas e seres bestiais convivem entre si de forma conturbada. Uma dessas bestas é Gundrum, um minotauro duplamente desprezado por seu povo: primeiro por nascer com uma deformidade e, segundo, por ocupar o malvisto cargo de bruxo da aldeia. Quando um mensageiro monstruoso começa a cruzar o continente anunciando a vinda de verdadeiras aberrações, Gundrum vê-se obrigado a abandonar seu lar e se juntar a aliados bem incomuns. Assim, o grupo tenta descobrir qual a finalidade dos cultos sombrios realizados pelo arauto.

Essa é a velha e infalível fórmula do grupo de indivíduos peculiares e marginalizados que se unem por um objetivo em comum. Por mais que já tenhamos visto isso em muitas obras, as possibilidades de interação entre as diferentes raças são grandes, permitindo combinações diferentes e curiosas. Temos a gigante Katta com sua impressionante força física; a meio orc Morween e seu inseparável javali; Tuhin, um humano amaldiçoado que pode se transformar em uma grande hiena; o próprio Gundrum, responsável pelos feitiços; e Tombrood, um ser misterioso que ninguém sabe muito bem como definir a não ser como uma poça de gosma bem útil. Assim como no RPG, eles possuem classes e raças variadas e contribuem com suas melhores habilidades.

O autor encaixa bem essa gama de personagens em um ambiente com mitologias e lendas próprias. A diversidade de raças, os costumes e a geografia de cada região de Aldaman são exploradas conforme o grupo avança em sua marcha, indo de um extremo ao outro do continente.

Outro ponto que se destaca em Sobre Deuses e Seres Rastejantes é que o protagonista não é um herói incompreendido que quer salvar o seu povo e, com isso, provar o seu valor. Gundrum é um bruxo ambicioso que quer expandir seus conhecimentos e acredita que conseguirá isso cumprindo a missão de deter o inimigo. Ainda que a narração seja feita por ele, fica difícil saber exatamente qual sua índole porque, ao mesmo tempo em que o minotauro se importa com seus companheiros, ele também não hesita em tomar decisões moralmente questionáveis em benefício próprio.

O mundo nunca foi justo, não havia motivo para eu ser” (p. 240)

O livro também tem bastante ação e as lutas são bem descritas, explorando o potencial de cada um dos membros da equipe. Infelizmente, perto do fim, os acontecimentos passam a impressão de se desenrolarem rápido demais, tirando um pouco o impacto do embate final para indicar qual será a provável trama do próximo volume.

Mesmo assim, Sobre Deuses e Seres Rastejantes – A Balada de Gundrum é o ponto de partida de uma jornada onde o futuro é incerto, assim como o rolar dos dados em uma mesa de RPG. A dualidade do protagonista deixa em aberto a questão sobre qual rumo a história seguirá, de modo que Piaza Merighi pode nos surpreender com o desfecho dessa saga.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.