Capa » Resenhas » Resenha | O Restaurante no Fim do Universo (livro 2)
Resenha | O Restaurante no Fim do Universo (livro 2)

Resenha | O Restaurante no Fim do Universo (livro 2)

Depois de iniciar minha viagem pelo tempo-espaço com O Guia do Mochileiro das Galáxias, chegou a hora de dar continuidade à icônica saga de Douglas Adams com O Restaurante no Fim do Universo. O segundo volume mantém a mesma linha satírica e irônica do primeiro, porém fazendo críticas ainda mais diretas.

Depois de encerrar sua primeira aventura, o improvável grupo composto por Arthur, Trillian, Ford, Zaphod e Marvin, o Androide Paranoide, decide fazer uma parada no Milliways, literalmente o restaurante no fim do Universo. Porém a ida até lá é apenas o início de uma viagem através do tempo onde as coisas mais absurdas podem acontecer de maneira imprevisível. E assim eles dão mais um passo rumo à Pergunta Fundamental sobre a Vida, o Universo e Tudo o Mais, além de descobrirem outros segredos da galáxia.

Como eu já havia dito na primeira resenha, a nave dos protagonistas, a Coração de Ouro, é movida por um gerador de improbabilidade infinita, uma peça importante que justifica diversos acontecimentos inusitados e improváveis, como o nome sugere. Juntando isso com viagem no tempo, a coisa fica ainda mais complexa e absurda, de forma que eu não recomendo ficar esperando por muitas explicações lógicas. As coisas simplesmente acontecem de um modo aleatório (ou não).

A característica mais forte do livro um foi o senso de humor presente na maioria dos diálogos. Agora essa receita também se repete, mas pude perceber que a narrativa de Adams está bem mais ácida, com críticas mais explícitas. Ele sempre esteve envolvido com causas ambientais além de se posicionar em defesa da vida animal, então não perdeu a chance de alfinetar pessoas e setores que que não se importam com essas questões.

Um dos momentos mais marcantes da leitura e que dá um “tapa na cara” de muitos é quando eles estão pedindo seus pratos no restaurante e quem vai atendê-los é um boi que se oferece como jantar. Outra passagem em que a ferroada não passa despercebida é quando um dos personagens está fazendo uma reflexão sobre o preço elevado que pagamos para mantermos certos meios de transporte.

– Eu simplesmente não quero comer um animal que está na minha frente se oferecendo para ser morto – disse Arthur. – É cruel!

– Melhor do que comer um animal que não deseja ser comido – disse Zaphod.” (p. 85)

No geral, as cenas cômicas satirizam pessoas e circunstâncias que são ridículas quando paramos para pensar sobre elas, mas que acontecem com muita frequência: sejam governantes incapazes, indivíduos sem a menor competência para desempenhar seu trabalho ou futilidades de todo o tipo. E em todos esses casos, tais pessoas nunca se veem como as erradas ou mesmo esquisitas. Mesmo sendo uma obra lançada em 1980, está mais atual do que nunca.

Ao meu ver, a confusão da trama segue a mesma falta de sentido que algumas coisas que nós fazemos possuem. A busca por algum significado, como a Pergunta Fundamental por exemplo, é discutida de forma bem perspicaz pelo autor, exibindo a magnitude do Universo em oposição à pequenez da humanidade através da graça.

De outra maneira, acredito que falar sobre esses assuntos seria bem cansativo, para não dizer chato. Confesso que em algumas partes eu fiquei entediado com o que estava ocorrendo justamente por retratar episódios que seriam tediosos na vida real. Ainda assim, O Restaurante no Fim do Universo e todo o restante da saga criada por Douglas Adams é genial, pois cutuca a ferida enquanto te faz rir da própria condição.

Adicione este livro à sua biblioteca!

Leia a resenha dos outros volumes:

As minhas impressões pessoais sobre a série como um todo

Leia mais sobre ficção científica no Leituraverso

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.