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Resenha | O Palácio da Meia Noite (Trilogia da Névoa livro 2)

Resenha | O Palácio da Meia Noite (Trilogia da Névoa livro 2)

O Palácio da Meia Noite é o segundo romance de Carlos Ruiz Zafón, publicado em 1994. Juntamente com O Príncipe da Névoa e As Luzes de Setembro, a obra integra a Trilogia da Névoa que, por mais que seja rotulada como infanto-juvenil, tem o poder de impressionar e emocionar leitores de todas as idades.

A história se passa em Calcutá, na Índia, no ano de 1932. Lá conhecemos os irmãos gêmeos Ben e Sheere, que foram separados logo após o nascimento. Ele foi encaminhado para o orfanato, enquanto ela cresceu sem uma residência fixa junto da avó materna. Aos 16 anos, eles se reencontram e descobrem que estão sendo perseguidos pelo vingativo Jawahal. Para fugir das garras desse sujeito misterioso, os irmãos contam com a ajuda da Chowbar Society, uma espécie de sociedade secreta formada por Ben e seus amigos do orfanato. A sede do grupo fica no Palácio da Meia Noite e lá, os jovens desenterrarão segredos do passado e enfrentarão um inimigo poderoso.

Assim como Marina, este livro conta com um toque fantasioso e sobrenatural que o coloca como sendo um romance juvenil. Mas quem conhece Zafón sabe que ele não escreve especificamente para um único público. Sua intenção é atingir o máximo de leitores que conseguir e despertar neles o interesse pela leitura. Não é à toa que a maioria de seus personagens tenham uma relação íntima com os livros, como em A Sombra do Vento.

Também vale ressaltar que os romances que compõem a Trilogia da Névoa são independentes, tendo como elemento em comum a bruma misteriosa  e sombria que gira em torno dos personagens, além da classificação de literatura infanto-juvenil. Assim, este livro não é uma sequência de O Príncipe da Névoa e nem pré-requisito para a leitura de As Luzes de Setembro.

O autor ainda ressalta que era uma pessoa mais nova e inexperiente quando escreveu este e os outros volumes da trilogia, de forma que isso deveria ser levado em consideração. Mesmo assim, faz questão de manter tudo como havia escrito originalmente, sem fazer alterações e nem corrigir erros. Contudo não há erro no sentido literal da palavra. A atmosfera fantástica permite que algumas coisas aconteçam de forma pouco provável, afinal não é uma trama realista.

Quem já leu It – A Coisa, de Stephen King, certamente encontrará paralelos entre o Clube dos Otários e a Chowbar Society. Ambos são grupos de adolescentes deslocados que se unem para enfrentar algo desconhecido, cada um contribuindo da melhor forma, usando seu talento e personalidade característicos. Sem contar que todos são carismáticos e possuem importância para o quadro geral.

O grande vilão de O Palácio da Meia Noite, Jawahal, não chega a ser tão horripilante quanto Pennywise, mas é igualmente perigoso. Isso rende momentos sombrios, tensos e algumas vezes violentos, o que tira qualquer chance de infantilidade na obra ou na forma como os leitores são tratados.

Um último personagem se destaca: Calcutá. Assim como Barcelona é retratada sob um olhar único nos quatro livros da saga O Cemitério dos Livros Esquecidos, indo muito além de um simples cenário, a cidade indiana ganha vida através de seus contrastes sociais e mitologias. As ruas sombrias, os casarões abandonados e seus habitantes excêntricos fazem com que a capital de Bengala seja um elemento fundamental na construção do enredo.

Embalado por tantos ingredientes fascinantes, O Palácio da Meia Noite apresenta reviravoltas impressionantes, personagens complexos e um desfecho comovente típico dos livros de Zafón, de forma que tanto os leitores mais novos quanto os mais velhos irão se deixar levar por esta aventura.

Adicione este livro à sua estante!

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.