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Resenha | O Jogo do Anjo – Carlos Ruiz Zafón

Resenha | O Jogo do Anjo – Carlos Ruiz Zafón

Não é exagero dizer que Carlos Ruiz Zafón foi um dos melhores romancistas da ficção contemporânea. Infelizmente, o autor nos deixou em 2020, mas seu legado permanece para encantar muitos leitores com histórias belas e cativantes. Entre suas obras, a que mais se destaca é a saga O Cemitério dos Livros Esquecidos, composta por quatro volumes dos quais O Jogo do Anjo – publicado em 2008 – é o mais misterioso e subjetivo.

A trama se passa em Barcelona, entre as décadas de 1920 e 30, antes dos acontecimentos de A Sombra do Vento. Aqui conhecemos David Martín, um escritor frustrado com sua carreira literária, que se descobre doente e com menos de um ano de vida pela frente. Morando sozinho em um casarão velho e soturno, a vida de David começa a se transformar quando o editor estrangeiro Andreas Corelli lhe oferece uma fortuna para escrever um livro com o potencial de impactar o mundo. Mesmo tentado com a oferta, Martín descobre que muito mais coisas além do dinheiro estão em jogo.

Dentre os livros da série, O Jogo do Anjo é o mais sombrio de todos, com uma atmosfera sobrenatural em torno da cidade e de seus personagens. A narração em primeira pessoa reforça ainda mais essa impressão ao nos apresentar somente o ponto de vista do protagonista e, por vezes, ficamos nos questionando sobre a veracidade do seu relato. É possível reconhecer muitos elementos fantasiosos dos romances infanto-juvenis que Zafón escreveu no começo da carreira com a Trilogia da Névoa e Marina, principalmente as semelhanças entre Andreas Corelli e o Príncipe da Névoa, outro personagem enigmático. Mas agora, a narrativa mais madura assume um tom urgente e tenso.

Pode parecer que isso torna a leitura pesada, porém a personalidade do narrador-personagem a deixa agradável. É impossível não sentir empatia por Martín enquanto a vida mostra-se tão cruel desde que ele era criança. O jeito que ele encontra para conviver com suas amarguras e fracassos é responder a tudo com sarcasmo e um senso de humor ácido. A única coisa que o mantém vivo é o amor pelos livros e pela literatura.

Graças à sua maneira de enxergar o mundo, Barcelona nunca pareceu tão obscura. Quem conhece a escrita de Zafón sabe que a cidade é um personagem vivo dentro de suas histórias devido às descrições únicas que o autor consegue elaborar. Sob os olhos de David, o cenário ao redor parece esconder perigos em cada esquina, camuflados na sujeira e precariedade constantes das ruas e vielas e também no caráter da maioria dos cidadãos.

Outra figura que se destaca é Isabella Gispert. A jovem de 17 anos é o contraponto que motiva David a seguir em frente em diversas ocasiões, sendo uma das melhores personagens do livro, com um carisma encantador. Juntos, ela e Martín travam diálogos divertidos e emocionantes, construindo uma amizade que se revela essencial para toda a saga.

O ar místico que é desenvolvido ao longo da obra deixa o desfecho ambíguo. Algumas questões ficam em aberto, deixando dúvidas sobre o que teria acontecido realmente em certos momentos. As respostas são obtidas apenas em O Prisioneiro do Céu, o terceiro volume da série, lançado em 2011. Esse livro dá um novo significado para tudo o que David nos conta ao apresentar um ponto de vista mais realista.

O Jogo do Anjo, por si só, é um romance incrível que dá margem para inúmeras interpretações. Contudo, dentro da obra maior que é O Cemitério dos Livros Esquecidos, ele tem um papel específico de apresentar personagens fundamentais para criar o panorama que é concluído apenas em O Labirinto dos Espíritos, de 2017. Esse quebra-cabeça criado habilmente mostra o quanto Carlos Ruiz Zafón tinha talento para divertir, encantar e emocionar com seus escritos, os quais nunca serão esquecidos.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.