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Resenha | O Fundo é Apenas O Começo – Neal Shusterman

Resenha | O Fundo é Apenas O Começo – Neal Shusterman

A mente humana é um verdadeiro emaranhado de pensamentos e conexões que tentamos organizar a todo o momento. Se algo compromete essa organização, como uma doença mental por exemplo, não conseguimos compreender a nós mesmos e nem à realidade a nossa volta. Isso é basicamente o que acontece com o protagonista de O Fundo é Apenas O Começo, premiado livro do escritor Neal Shusterman.

Caden Bosch é um adolescente de 15 anos que vê o mundo de uma forma peculiar. Através de um relato em primeira pessoa, o acompanhamos a bordo de um navio rumo ao ponto mais profundo da Terra: a depressão marinha conhecida como Challenger Deep. O Capitão do navio encarrega o rapaz de documentar a viagem através de desenhos, mas Caden está dividido entre a lealdade a seu superior e a rebelião. Paralelo a essa aventura no mar, somos apresentados à vida cotidiana do garoto em casa e na escola, até que as duas tramas começam a se encontrar.

No começo, a narrativa é bastante confusa, principalmente por apresentar apenas o ponto de vista do protagonista. Por outro lado, é essa mesma confusão que evidencia os problemas de Caden e como eles vão se agravando aos poucos. O que começa como um comportamento excêntrico vai tomando proporções maiores até se tornar perigoso para o próprio rapaz. E o fato de ele não ter consciência de sua condição torna as coisas ainda mais intensas.

Com o passar do tempo, as peças enfim vão se encaixando e algumas coisas ditas pelo garoto no início ficam mais claras. Em alguns momentos, descobrimos junto com ele o que cada elemento significa; em outros percebemos primeiro e esperamos para ver se ele se dará conta ou ficará apenas subentendido.

Apesar de ser considerado literatura para jovens, O Fundo é Apenas O Começo está bem distante de O Ceifador e A Nuvem, os dois primeiros volumes da trilogia distópica escrita por Shusterman. Apesar de o relato de Caden possuir elementos fantasiosos, eles estão presentes para mostrar como os medos e dúvidas do personagem se manifestam, mantendo um tom mais realista.

Essas metáforas e alegorias que o autor usa no desenrolar do livro são de uma sensibilidade notável e expressam da melhor maneira possível como uma doença mental afeta tanto o paciente quanto as pessoas a sua volta. Para realizar esse feito, ele se inspirou na condição do próprio filho, o artista e escritor iniciante Brendan Shusterman, que está incluído no espectro da doença mental. Neal contou com as impressões do filho para descrever as sensações ocasionadas pelos surtos e medicamentos pesados. Além disso, os desenhos que ilustram a obra foram feitos por Brendan nos momentos de crise.

Ainda assim, se você precisa ficar a um triz de perder a vida só para gritar por socorro, há alguma coisa errada. Ou você não estava gritando alto o bastante, ou as pessoas na sua vida são cegas, surdas e mudas. O que me leva a pensar que não é só um grito de socorro – é mais um grito para ser levado a sério. Um grito que diz: “Estou sofrendo tanto que o mundo precisa, pela primeira vez, parar e me dar atenção.”

Assim, entre reflexões e pensamentos que provocam os leitores, O Fundo é Apenas O Começo dá um mergulho nas profundezas da mente humana sob o ponto de vista único de quem é acometido por uma doença mental. O resultado é uma viagem inusitada e uma mensagem de esperança para aqueles que enfrentam esse problema ou conhecem alguém que passa por isso.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.