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Resenha | Deuses Caídos

Resenha | Deuses Caídos

Como você reagiria se descobrisse que o sobrenatural existe? Que entidades como anjos, demônios e espíritos vagam na mesma cidade onde você vive? Em Deuses Caídos, do escritor carioca Gabriel Tennyson, somos tragados para um submundo habitado por essas criaturas e muitos outros perigos.

Tudo começa quando o vídeo de um religioso famoso por se envolver em escândalos de corrupção vai parar no YouTube. As imagens mostram o homem sendo cruelmente torturado e cabe aos internautas decidirem qual será seu destino. Ciente de que forças sobrenaturais estão relacionadas ao atentado, o padre Judas Cipriano é encarregado de investigar o caso junto com a inspetora da Polícia Civil, Júlia Abdemi. Sua missão é deter o sequestrador e impedir que a sociedade tome conhecimento da existência de um submundo fantástico nas entranhas do Rio de Janeiro. Porém as coisas começam a fugir ao controle quando outros evangelistas desaparecem e mais vídeos surgem. Assim, Cipriano precisa correr contra o tempo e recorrer a meios nada convencionais para derrotar um inimigo poderoso.

O livro se destaca por diversos aspectos, mas o principal deles é o protagonista. Cipriano vai contra a imagem que normalmente temos de um padre. Segundo o próprio autor, ele é inspirado nas habilidades de John Constantine e no porte atlético de Zeca Pagodinho (wtf??). Mas não para por aí! O clérigo da Sociedade de São Tomé é conhecido por sua indisciplina, uma boca mais suja que banheiro de rodoviária e também por suas preferências sexuais nada ortodoxas.

Mesmo assim, ele não pode ser subestimado. Por mais sem noção que ele seja em alguns momentos, percebemos desde o começo que ele tem um senso de dever, o qual é reforçado pelo seu passado obscuro. Para aqueles que são fãs de animes com essa temática, Cipriano lembra em muitos sentidos, inclusive na aparência, o padre Fujimoto de Blue Exorcist.

Outro ponto de destaque é a unificação das várias mitologias em um mesmo contexto. A ascensão e queda dos deuses e o surgimento das religiões (a católica entre elas) nos recorda outra obra de fantasia nacional onde a crença também é a base de tudo: Fios de Prata, do Raphael Draccon. Por outro lado, para que isso seja bem executado, é lógico esperarmos que muitos dogmas e conceitos religiosos sejam interpretados de outra forma. Então, se para você religião for um assunto sério e intocável, pode ser que algumas passagens o incomodem. Se não for o caso, a abordagem do tema sob essa ótica alternativa se torna bem atraente.

Entretanto, o que de fato torna a leitura de Deuses Caídos intensa é a violência brutal contida na narração. Tennyson não tem pudor algum ao descrever cenas grotescas e macabras, se valendo de pontos conhecidos da cidade do Rio de Janeiro para criar uma atmosfera sombria e familiar.

Por ser uma fantasia urbana atual, encontramos várias referências da culta pop e nerd, além de referências a memes já consagrados na internet. Mas em dado momento a informalidade excessiva dos diálogos e dos personagens causa certo incômodo, principalmente quando aparece na hora que não deveria. Há, também, um artifício um tanto quanto manjado para ocultar a identidade do vilão.

De qualquer forma, entre muitas descrições sinistras, violência e humor ácido, Deuses Caídos conta uma história empolgante, recheada de elementos que desafiam a lógica humana. O desfecho chocante ainda dá margem para uma provável sequência. Portanto, se você achou que as blasfêmias acabaram, se fodeu, zé ruela.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.