Capa » Resenhas » Resenha | A Canção das Sereias
Resenha | A Canção das Sereias

Resenha | A Canção das Sereias

É muito prazeroso quando você se depara com a obra de um autor nacional e se surpreende com a qualidade da escrita e a criatividade demonstrada para se criar um mundo com suas próprias regras. A Canção das Sereias, noveleta de Renan Santos, é um ótimo exemplo disso, apresentando um novo universo dentro da literatura fantástica brasileira.

Somos transportados para Erys, um local habitado por diversas criaturas fantásticas. Quando cadáveres de sereias começam a surgir no mar, a Irmandade da Luz recruta a cavaleira Lynöre e sua discípula, Reyrón, para investigarem o caso junto com uma equipe de especialistas. O grande obstáculo, porém, é a relação conturbada entre mestra e aprendiz que põe em risco não só a missão como suas próprias vidas.

O diferencial de A Canção das Sereias é justamente o worldbuilding, ou seja, a criação do mundo de Erys. Além das diversas raças — humanos, elfos, sereias, entre outros — existe uma estrutura hierárquica particular tanto dentro da Irmandade quanto fora. E todos estão sujeitos a um sistema de magia com regras e limitações definidas. Para completar, existe um idioma característico para nomear os cargos de cada personagem e as propriedades mágicas de cada um. O melhor de tudo é que essas informações e nomenclaturas não precisam ser explicadas de maneira enfadonha. Elas simplesmente vão surgindo na narração e podemos deduzi-las através do contexto. Podemos encontrar algo semelhante nos livros O Mundo de Quatuorian, de Cristina Pezel, e A Face dos Deus, de Gleyzer Wendrew, onde compreendemos de forma dedutiva o significado de algumas expressões.

Os textos que são intencionalmente informativos fazem isso em forma de apêndices escritos por pessoas fictícias incluídas no ambiente onde a narrativa se passa. Isso mostra mais uma faceta dessas terras onde não existem apenas guerreiros, mas também estudiosos.

Outra característica que se destaca na trama de Renan é o relacionamento difícil entre as duas protagonistas. O modo que cada uma tem de enxergar as coisas já é um problema, o qual é agravado pela diferença de idade entre mentora e aluna: Reyrón é uma adolescente de 14 anos e age como tal; Lynöre é uma mulher mais velha que já passou por muita coisa na vida. Os conflitos das duas se assemelham bastante a uma relação entre mãe e filha, por mais que elas neguem isso com todas as forças. Contudo, seus desentendimentos vão além de uma simples disputa de egos, escondendo motivos bem mais profundos.

Algo que precisa ser dito é que esta noveleta deriva de um romance anterior, chamado A Semente do Caos. Por mais que eles compartilhem o mesmo universo, há um intervalo de tempo considerável entre os acontecimentos de um e de outro. Os relatos de A Canção das Sereias se passam mais de trinta anos antes da história do romance, servindo como uma porta de entrada para esse mundo complexo no qual as obras do autor se sustentam. Dessa forma fica mais compreensível que a novela não tenha uma conclusão, funcionando como uma introdução a elementos de grande importância para o enredo geral.

Mesmo assim, A Canção das Sereias cumpre seu papel de instigar o leitor a conhecer esse cenário cheio de peculiaridades criado por Renan Santos. E ele não descarta a possibilidade de reencontrarmos essas duas personagens tão cativantes em trabalhos futuros. Então podemos esperar muito mais aventuras vindas das terras de Erys.

Adicione este livro à sua biblioteca!

Conheça o livro A Semente do Caos (As Crônicas de Erys livro 1)

Conteúdo relacionado

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.