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O Timbre (Scythe – volume 3) | Resenha

O Timbre (Scythe – volume 3) | Resenha

O Timbre é o terceiro volume da Trilogia Scythe. Para ler a resenha dos dois primeiros volumes, clique AQUI

Desde de 2017, vínhamos acompanhando o mundo utópico apresentado pelo escritor Neal Shusterman na trilogia Scythe. Mas ao longo dos dois primeiros livros – O Ceifador e A Nuvem – pudemos perceber que esse cenário estava se afastando cada vez mais da perfeição planejada. Agora, em O Timbre, chegamos ao ato final da disputa silenciosa entre A Ceifa e a Nimbo-Cúmulo.

Depois dos acontecimentos de A Nuvem, parece que nada mais está no caminho de Goddard e sua nova ordem de ceifadores rumo à dominação da Ceifa mundial. Incapaz de interferir, a inteligência artificial Nimbo-Cúmulo decide se silenciar e deixar que os humanos se responsabilizem por suas decisões. Enquanto isso, o grupo religioso dos tonistas ganha força após a Grande Ressonância e, a partir de sua crença, nasce a tríade que promete fornecer as respostas para o caos do mundo: o Tom, o Timbre e a Trovoada.

Desde o primeiro volume já estava claro que, por mais que o mundo fosse perfeito, as pessoas ainda continuavam imperfeitas. A corrupção e sede de poder de um grupo sempre traria algum tipo de prejuízo e agora podemos ver a proporção catastrófica que isso toma, ameaçando arruinar definitivamente essa sociedade utópica.

A passagem de tempo é algo peculiar nesse livro. Propositalmente os capítulos apresentam acontecimentos em datas diferentes e não conseguimos perceber isso de imediato. Só depois de algumas páginas as peças começam a se encaixar e nos situamos dentro da narrativa. Aqueles depoimentos de personagens entre um capítulo e outro são fundamentais para nos mostrar o contexto e algumas consequências do que está acontecendo conforme os dias e meses avançam.

O Timbre resgata alguns núcleos de personagens que pareciam não ter muita importância lá no início da história, como os tonistas. Seus rituais e costumes beiram o ridículo, mas ainda assim eles se mostram um bando numeroso e até perigoso em algumas ocasiões, revelando todo o fanatismo existente. Paralelo a isso, mais informações sobre o passado da Ceifa são reveladas, inclusive a sua fundação há mais de dois séculos.

Ainda sobra espaço para a introdução de novos personagens, como os ceifadores da região do SubSaara. Porém, nenhuma dessas novas figuras é tão importante quanto Jerico Soberanis, capitão de uma equipe de resgate marítimo. Jerico é da região de Madagascar, que no livro é conhecida pelo fato de seus habitantes serem livres para escolher seu gênero. Jeri, entretanto, não se decidiu, ora se identificando como mulher, ora como homem. Essa é uma característica curiosa e inclusiva, mas não é o que determina sua relevância. Soberanis se destaca pelo carisma, pela inteligência e pela química que possui com algumas pessoas com quem interage.

A trilogia inteira é marcada por momentos grandiosos de arrepiar e não poderia ser diferente no último volume. Mas aqui eles não esperam o último ato para ocorrerem. Quando menos esperamos, acontece alguma coisa terrível ou uma guinada no destino dos protagonistas que deixa o futuro incerto. O ponto positivo disso é que o desfecho se torna imprevisível. A parte “negativa” é que ficamos esperando algo igualmente grandioso no final. O embate derradeiro não é ruim; na verdade é totalmente inesperado, mas fica uma sensação de que poderia ter sido mais impactante e direto.

De qualquer forma, O Timbre encerra a trilogia Scythe de maneira chocante. Quem a acompanhou até aqui não irá se decepcionar com as respostas fornecidas e com as reflexões que a saga de Neal Shusterman provoca em seus leitores, questionando como seria para nós viver em um mundo perfeito sendo tão imperfeitos.

Adicione este livro à sua biblioteca!

Leia a resenha de O Ceifador (Scythe – volume 1)

Leia a resenha de A Nuvem (Scythe – volume 2)

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Sobre Mozer Dias

Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.