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Cinema | Nós (2019) | Crítica

Cinema | Nós (2019) | Crítica

Nós é um dos filmes mais comentados do momento. A obra escrita, produzida e dirigida por Jordan Peele se tornou fenômeno de bilheteria graças às mesmas características que tornaram Corra!, o primeiro filme do diretor, um sucesso: um roteiro original, múltiplos significados e duras críticas sociais.

Somos apresentados a Adelaide e Gabe (interpretados por Lupita Nyong’o e Winston Duke, ambos de Pantera Negra), um casal que decide passar o fim de semana com os filhos em uma casa de veraneio. Porém o descanso deles acaba quando um grupo de pessoas idênticas a eles cerca sua casa e os faz reféns.

Por mais que Nós tenha elementos comuns de filmes de terror, a interação entre os personagens e seus duplos causa grande perturbação, principalmente pelo fato de que não sabemos nada a respeito da origem das cópias de antemão. Elas simplesmente surgem do nada e começam a aterrorizar uma família comum, sem poupar nem mesmo as crianças. A liderança do grupo cabe à Red, a sósia de Adelaide. A forma fria e desprovida de emoção como ela age a torna assustadora por se assemelhar a alguém real e não a uma figura sobrenatural.

E nesse quesito, fica o destaque para a atuação de Lupita, que desempenha dois papeis de forma excelente, se entregando de forma intensa para dar vida às duas mulheres. Infelizmente não podemos dizer o mesmo sobre o papel de Winston, que serve apenas como alívio cômico nos momentos de humor do filme.

Já a aproximação com a realidade causada pelos personagens dá um toque ácido à narrativa, pois coloca os protagonistas frente a frente com seu lado mais sombrio em uma situação extrema. Nesses momentos não há certo ou errado, eles têm que fazer o que for necessário para prevalecer. Isto faz com que nós, os espectadores, nos coloquemos nas mesmas circunstâncias.

Há muita simbologia no filme, o que permite diversas interpretações, entretanto o que fica explícito é a crítica que o diretor faz à falta de oportunidades a qual algumas pessoas são submetidas. Se você não tem acesso a uma educação mínima, você está fadado a cair no esquecimento e se tornar uma sombra. A falta de informação e conhecimento torna o indivíduo facilmente manipulável, enquanto quem tem o mínimo de instrução é capaz de se impor sobre os menos favorecidos.

Ao logo da película, cenas que pareciam aleatórias vão se encaixando para formar um grande quebra-cabeça onde cada peça desempenha a sua função. Dessa forma, ficamos sabendo a origem dos sósias, mesmo que a explicação seja confusa e breve. Contudo, isso é perdoável graças à grande reviravolta no final, inesperada, mas que faz sentido dentro da trama. Essa virada no roteiro é a mesma particularidade que torna M. Night Shyamalan aclamado por seus finais em Corpo Fechado, Fragmentado e Vidro.

O sucesso de Nós é totalmente compreensível diante de todos os significados ocultos que ele possui. Jordan Peele mostra mais uma vez a sua marca registrada e consegue divertir, assustar e impressionar na medida certa além de fazer a audiência refletir.

Ficha técnica:

  • Data de lançamento: 21 de março de 2019
  • Duração: 2h01min
  • Gênero: terror, suspense
  • Direção, roteiro e produção: Jordan Peele
  • Elenco: Lupita Nyong’o (Adelaide/Red), Winston Duke (Gabe/Abraham), Shahadi Wright Joseph (Zora/Umbrae), Evan Alex (Jason/Pluton)

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.