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Séries | Cobra Kai – primeira temporada | Crítica

Séries | Cobra Kai – primeira temporada | Crítica

Muitas produções embarcaram na onda de resgatar filmes dos anos 80 e fazer uma releitura ou até mesmo dar sequência à história. Porém, nem sempre o resultado fica tão bom, o que gera certa desconfiança toda as vezes que ouvimos falar que uma nova obra desse tipo será produzida. Houve esse mesmo receio com Cobra Kai, uma série do serviço pago do YouTube, que se propõe a dar continuidade a um dos grandes clássicos da Sessão da Tarde: Karatê Kid, de 1984. Mas felizmente toda a dúvida só aumenta nossa surpresa com a qualidade e o caráter nostálgico do programa.

A trama se passa 34 anos após o torneio no qual Daniel LaRusso (Ralph Macchio) derrotou seu rival Johnny Lawrence (William Zabka) com o famoso Chute da Garça. Desde então, Johnny vem levando uma vida de fracassos regada à cerveja e amarguras. Tentando dar a volta por cima, ele admite seu primeiro aluno e reabre o dojo Cobra Kai. Sabendo disso, Daniel – agora um importante empresário, dono de uma concessionária de automóveis – relembra todos os fantasmas do passado e reacende sua rivalidade com Lawrence.

Inicialmente, a produção gira em torno do ponto de vista de Johnny Lawrence. Ao mesmo tempo em que tenta recuperar a reputação da Cobra Kai, ele deseja fugir da sombra de seu antigo mentor, o cruel Kreese (Martin Kove). Ainda assim, Johnny mantém a velha filosofia de “atacar primeiro, sem misericórdia”, o que faz com que seus métodos sejam controversos. Entretanto, eles começam a surtir efeito positivo em seu pupilo, Miguel (Xolo Maridueña), que sofre com bullying e problemas de autoconfiança. O contato de Lawrence com a geração atual também causa momentos divertidos ao confrontar duas mentalidades diferentes e contestar os pensamentos (um tanto quanto preconceituosos) do sensei.

Outro ponto bem explorado é o confronto entre Daniel e Lawrence, que se consideram vítimas um do outro. Johnny atribui o início de todos os seus fracassos pessoais ao dia em que seu rival apareceu em sua vida. Já Daniel acredita que o outro continua o mesmo valentão agressivo de sempre, o que o leva a tomar algumas atitudes questionáveis. É nesse momento de confusão de Daniel que a série faz uma linda homenagem ao Senhor Miyagi e seu interprete, o ator Pat Morita, que faleceu em 2005. É emocionante recordar o simpático e sempre tranquilo mestre, e perceber o quanto ele ainda é importante.

Contudo, essa não é a única referência direta a Karatê Kid. Ao longo do desenvolvimento, a narrativa recorre a flashbacks para relembrar diversos momentos do filme. Sem contar que boa parte do elenco original está na obra. Essa ligação torna o roteiro convincente e nostálgico, de forma que a intenção não é recontar a história – como as releituras protagonizada por Hilary Swank em 1994 ou aquela produzida por Will Smith em 2010 tentaram fazer – mas sim continuá-la.

Nessa atmosfera saudosa vamos acompanhando a evolução dos personagens e as implicações dos ensinamentos de Johnny, não só as positivas mas também as negativas. Com isso, novos conflitos são criados à medida que as lições são levadas muito ao pé da letra.

Como já era de se esperar, a trama recai em alguns clichês e repete algumas fórmulas do original bem previsíveis. Isso inclui a necessidade de criar dois lados opostos como o “bonzinho e o malvado”, a existência de outro golpe quase impossível e também o indicativo de um possível triângulo amoroso.

Esses detalhes não chegam a ser um problema incômodo, visto que o grande mérito de Cobra Kai é homenagear um dos filmes mais queridos de quem viveu a infância e a adolescência nos anos 80 e 90 e criar uma nova geração de karatê kids. E isso a produção conseguiu executar com louvor, prometendo se manter assim na segunda temporada.

Assista ao trailer:

Conheça outras releituras marcantes ouvindo o Leituracast 17

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.