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Trilogia da Fundação – uma releitura da História da Humanidade | Artigo

Trilogia da Fundação – uma releitura da História da Humanidade | Artigo

Ler a Trilogia da Fundação foi uma das melhores escolhas literárias que fiz esse ano. Em cada volume da obra-prima de Isaac Asimov pude perceber que ele reconta a trajetória da humanidade por meio de uma alegoria além de seu tempo, cuja engenhosidade foi reconhecida em 1966 ao ganhar o Prêmio Hugo de melhor série de ficção científica e fantasia de todos os tempos.

No primeiro volume, Fundação, encontramos os humanos reinando sobre a Via Láctea em um Império que já dura mais de 12 mil anos. A origem terrestre da humanidade sequer é lembrada, adquirindo status de lenda. Porém esse reino encontra-se à beira do colapso e o único homem que enxerga isso é Hari Seldon. Através de uma ciência conhecida como Psico-história, ele prevê que um período de barbárie se aproxima e se estenderá por cerca de 30 mil anos. Contudo é possível que esse tempo seja reduzido para apenas um milênio. Com esse objetivo em mente, Seldon cria as duas Fundações, uma em cada extremo da Galáxia, e a partir do seu desenvolvimento o Segundo Império poderá surgir. Nos demais livros, Fundação e Império e Segunda Fundação, acompanhamos os diversos obstáculos que precisam ser superados para que a previsão do psico-historiador se cumpra.

Basicamente, o que vemos é o declínio da raça humana e sua posterior tentativa de se reerguer. Observando com cuidado o progresso da Fundação, podemos notar que Asimov se inspira na História da humanidade, retratando pontos fundamentais que possibilitaram a formação das sociedades. Nos primórdios, as superstições e crenças infundadas dominavam o pensamento coletivo; algum tempo depois, a Ciência começou a ganhar espaço e a trazer racionalidade às pessoas, chegando a entrar em conflito com a Religião. Enquanto isso, a atividade comercial foi crescendo até se tornar uma parcela significativa das relações sociais. Assim, não é por acaso que os primeiros passos da Fundação sigam essa mesma linha, liderados por personagens marcantes como o Salvor Hardin e o comerciante Hober Malow, ambos tidos como visionários.

Seguindo por esse caminho, é inevitável que disputas por poder aconteçam; então começa o desenvolvimento militar e as guerras, como vemos em Fundação e Império. Mesmo que isso vá contra a filosofia dos primeiros governantes da Fundação, o passar dos anos torna o militarismo necessário para se defender dos adversários. Porém, quando subjugar os rivais à força já não é suficiente, o jeito é vencê-los ideologicamente. Se a Trilogia da Fundação está em sincronia com os livros de História, o terceiro volume, Segunda Fundação, é o que mais se aproxima da Guerra Fria, mesmo que a batalha mental tenha um sentido mais literal na ficção.

Enquanto eu lia e percebia essas similaridades, a dualidade da Fundação ficava cada vez mais evidente. Ao mesmo tempo em que é a esperança de trazer paz à Galáxia, ela também se impõe sobre os planetas vizinhos, dominando-os através da força, das ideias ou do dinheiro. Isso não torna os membros da instituição os mocinhos da obra, tanto que alguns de seus governantes decidem adotar políticas que eram combatidas por seus antecessores, tornando-se déspotas. Até os membros da Segunda Fundação consideram-se superiores, ainda que tenham consciência de que isso não deve ser declarado abertamente para não gerar ressentimentos e desconfianças.

É nesse momento que as duas doutrinas polêmicas que inspiraram Asimov se mostram de forma mais significativa. Primeiro, o Destino Manifesto americano, o qual pregava que os Estados Unidos foram escolhidos por Deus para comandar o mundo. Nesse caso, Deus seria Hari Seldon que, ao longo dos séculos, foi se tornando cada vez mais um mito do que um cientista. A segunda corrente é o Nazismo e a ideia de que o poder deveria centralizar-se nas mãos das pessoas mais capacitadas, descartando qualquer pensamento democrático. Muitos prefeitos da Fundação pensam dessa forma, bem como o Mulo, o grande empecilho de todo o Plano Seldon.

Entretanto esse Plano foi traçado minuciosamente, de forma que muitas pessoas confiam cegamente nele. A Psico-história consegue prever as decisões coletivas de populações numerosas com bastante precisão. Tratando da Galáxia inteira, então, a previsibilidade das ações se torna muito maior. Durante a leitura, não é errado supor que a história se repete em um ciclo, já que a humanidade prosperou até o nascimento do Primeiro Império Galáctico e decaiu para se erguer novamente e rumar ao Segundo Império. Encarando desse modo, esses períodos sombrios de guerra e despotismo são necessários para a evolução, tanto que alguns personagens que temem o fracasso da Fundação tentam forçar uma crise para empurrar os governantes na direção correta.

Algo que chama atenção é que Asimov, apesar de toda a sua inventividade, não considerou em nenhum momento a existência de outras formas de vida pela Galáxia. Somente os humanos são personagens dessa trilogia. Confesso que em alguns momentos fiquei esperando o surgimento de um alien ou coisa semelhante, mas isso não acontece. A única peculiaridade que dá as caras é o Mulo, figura de grande importância que representa uma falha no plano traçado por Hari Seldon. Sua interferência não foi considerada nos cálculos do cientista por ser imprevisível. E voltando ao paralelo com nosso mundo, essa imprevisibilidade poderia se revelar uma catástrofe natural ou uma intervenção muito significativa na sociedade. Pensando nisso, não podemos esquecer que estamos enfrentando a pandemia do Corona vírus em 2020. Será que a Psico-história preveria isso?

Sendo isso previsto ou não, a Trilogia da Fundação enaltece a engenhosidade da raça humana e sua disposição para superar adversidades, fazendo uma releitura do nosso progresso ao longo da História por meio da ficção. As possibilidades e implicações de uma narrativa como essa são tão vastas que Isaac Asimov escreveu outros quatro volumes para complementar sua obra e atender ao pedido de seus editores e leitores. De minha parte, o que pude extrair da leitura desse clássico é que, seja na fantasia ou na realidade, o caminho para a prosperidade passa por altos e baixos, além de sofrer alguns desvios. Nós ainda não chegamos ao Segundo Império idealizado pelo autor, mas se tudo correr conforme o Plano, chegaremos lá.

Adicione a Trilogia da Fundação à sua biblioteca!

Leia a resenha de cada um dos volumes:

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.