SHINE | UM HOMEM FRACIONADO

SHINE | UM HOMEM FRACIONADO

A professora Marina já apresentava a pauta de reunião de pais e mestres quando uma das mães, ao chegar um pouco atrasada, foi recebida com grosseria e provocações por outra:

_ Ah… Chegou a covarde. Hoje resolvemos nossos problemas. De hoje não passa.

A professora sabendo do que se tratava tentou impedir que um tumulto ocorresse ali na sala de aula diante de outros pais de alunos. Advertiu Rita quanto ao mau comportamento e sugeriu à Helena que se mantivesse calma e não reagisse. Helena tentou atender o pedido da professora. Mas como a outra insistia em causar confusão, acabou reagindo:

_ Tenho alguma coisa pra falar com você? Não me lembro…

Não deu outra. O bate-boca começou a ponto de serem convidadas a sair da escola. Se continuassem comprometeriam o trabalho da professora.

As duas, Helena e Rita, tinham suas vidas entrelaçadas. Seus filhos, Mateus e Luan, eram irmãos, nasceram no mesmo ano e estudavam na mesma sala. Isso, muito comumente, significava problemas para a professora. Assim como as mães, os meninos viviam se enfrentado.

Toda a escola, depois desse conflito na reunião com Marina, saberia do que sustentava  aquele mal estar entre as duas. Embora na escola dos filhos aquela fosse a primeira discussão, os shows protagonizados pelas duas eram bastante frequentes e conhecidos pelo bairro afora. Ambas histéricas, ambas boas de briga, ambas certas em tudo, ambas vítimas da desonestidade da outra.   Tinham um acordo. E tal acordo, também conhecido por todo o bairro, estava, na opinião de uma, sempre sendo o tempo todo desrespeitado pela outra.

Há pouco menos de dez anos antes do vexame na escola dos filhos, estava Helena numa festa de aniversário na qual conheceu o mecânico de caminhões José Anísio. Os dois costumavam dizer aos amigos que se apaixonaram ali mesmo e dentro de pouco tempo estavam morando juntos e esperavam jamais se desgrudar um do outro. Helena, que trabalhava em um hospital, pensava ter tirado a sorte grande: o homem era honesto, trabalhador, sensível, romântico, generoso, dedicado e ela a mulher a quem outras tantas invejariam por todo o sempre. Afora as saídas dele em dias e horas impróprios para o trabalho, era um homem perfeito. Vivendo com ele, ela passou a estar certa de que os relacionamentos anteriores tinham mesmo que fracassar. Ela estava destinada a José Anísio. E ele a ela. O único homem bom e digno o bastante para merecer o seu amor. Com qualquer homem que não fosse ele o relacionamento não seguiria em frente. Tinha que ser ele. E somente ele.

Próximo à casa onde Helena e José Anísio viviam, havia um bar onde estava, em certa noite, uma  moça que parecia triste e pensativa e que se fez bastante interessante aos olhos de um homem que de imediato mostrou-se um verdadeiro partidão. Rita, na época, não tinha um emprego e sofria com as dívidas acumuladas ao longo de certo período sem trabalho remunerado. Numa manhã  na qual faria uma entrevista para trabalhar em um supermercado, uma semana depois do encontro no bar, recebeu a ligação daquele partidão que conhecera. Não pôde acreditar. Justo naquele dia em que nem se produzira muito bem para sair e sentia-se chata e meio deprê, conseguiu chamar a atenção daquele homem? Justo ele? Aquele para quem todos os olhares femininos convergiam? Depois da entrevista cujo resultado parecia ser positivo, estavam Rita e seu conhecido almoçando juntos. E que homem era aquele? De valor, viu? Sensível, solidário, generoso, romântico, trabalhador, honesto, dedicado, divertido, mecânico de caminhões e chamava-se José Anísio. Um homem que nunca, jamais, nunca mesmo na vida tinha se relacionado com mulher tão diferente e especial quanto ela.  Ela era a mulher feita para ele. E ele tinha certeza de que ela seria capaz de qualquer coisa pelo relacionamento dos dois. Ele via isso nos olhos dela. Outras mulheres perdiam feio em encanto e caráter. E, por serem homem e mulher tão especiais e valorosos e completarem-se tão harmoniosamente, começaram um namoro que dentro de pouco tempo tornou-se sério e firme.

Por causa do trabalho era necessário que José sempre fizesse viagens. E isso preocupava muito a mulher, Helena. Mas ela não tinha o que fazer a não ser aceitar. E também cheia de caraminholas na cabeça, ficava a outra mulher, Rita. Dias inteiros longe de casa? Um homem daquele? É claro que um monte de mulheres iam querê-lo pra elas…

E José Anísio vivia bem os seus dias trabalhando muito. Principalmente viajando… da casa de Helena para casa de Rita e da casa de Rita para casa de Helena. Homem trabalhador. Esforçado.

As viagens de trabalho do mecânico eram rápidas mas constantes. Por mais de um ano ele as fez sem maiores preocupações. Tudo às mil maravilhas até que certo dia, uma colega de trabalho de Rita, no supermercado, tinha consulta médica no hospital onde quem atendia no balcão de marcações era Helena. A colega de Rita precisou tornar-se mais frequente no hospital e criou certo vínculo com a atendente. Com o tempo, viraram amigas mesmo. Helena passou a fazer, não sempre por causa da distância de casa, compras no supermercado onde a paciente trabalhava. Nessas ocasiões, sempre procurava bater um papo mesmo que rápido com Soraya. E as maravilhas da vida de companheira do melhor homem do mundo começaram a diminuir, pois ele não gostou nenhum pouco de saber que entre tantos supermercados na cidade, ela tinha que ir logo àquele:

_ Meu bem, é só um supermercado. E fiz amizade com uma moça que trabalha lá. É oportunidade para que eu veja minha nova amiga também. _ dizia Helena quando questionada.

Amizade com alguém daquele supermercado? Preocupava-se o homem. E se fosse Rita? Não era. A mulher disse que a amiga se chama Soraya. Menos mal. E se Soraya fosse amiga de Rita? Não. Talvez não. Rita jamais dissera esse nome. Mas o risco era grande. Ele não podia dar vacilo. Proibiria a mulher de ir ao maldito supermercado. E de fato tentou. Mas, mandar na brava da Helena? Ele tinha que encontrar outra solução. Mas não encontrou e admitiu que a descoberta de sua vida dupla estava próxima. A cada dia, o mecânico tornava-se mais certo disso e em consequência ficava tenso dentro de casa. Dentro das casas, melhor dizendo. Segundo o que as mulheres eram levadas a acreditar, os clientes, caminhoneiros, eram os culpados por tamanho estresse. Eram exigentes demais e isso estava deixando José a beira de um ataque de nervos.

No dia em que José acompanhou Rita à casa de uma colega que fazia aniversário, conheceu Soraya, a conhecida em comum das duas companheiras. Como não ela havia ainda associado a pessoa dele à que a atendia no hospital, a tarde de bate-papo seguiu tranquila. Para as mulheres apenas. Todas funcionárias do supermercado. O homem, além de sentir-se feito um peixe fora d’água, tinha a questão pessoal com que se preocupar. E preocupava-se mesmo. Muito.

A descoberta da vida dupla de José Anísio deu-se meses depois do encontro na casa de Berê, a colega aniversariante de Rita. Apesar de descoberto, não tinha ainda sido este o fato que comprometeria a vida do homem com suas duas mulheres. Uma foto dele ao lado de Helena, ambos em trajes formais e festivos, colocada numa mesinha de trabalho dela próxima ao balcão de atendimento, foi o elemento que trouxe à tona a desafiadora vida de homem de duas mulheres.

Soraya, em dia de consulta, conversava com a simpática recepcionista apoiando-se no balcão de atendimento como sempre fazia. Com olhar difuso, despretensioso, viu a foto da mulher bela, sorridente e em vestido de noite, ao lado de um homem, também sorridente e elegantemente vestido. E o homem era ninguém menos que o mesmo que conhecera na casa de Berê. E não era ele o marido de Rita? Foi impossível não comentar a foto:

_ Lena, como você está linda nessa foto! E o moço? Certamente é o marido…

_ É. É o maridão sim. O homem da minha vida.

_ Formam um belo casal.

_ Você achou. Obrigada. Esse homem é tudo pra mim. _ disse Helena, permitindo-se emocionar olhando a foto.

Soraya achou difícil disfarçar sua estupefação e simular naturalidade. Não conseguiu retomar o descontraído assunto anterior. E no trabalho também não conseguiria ser tão espontânea e natural no convívio com Rita. O homem da foto seria mesmo o marido da colega? Era idêntico! Irmão gêmeo talvez? Perguntar seria adequado? Caso fosse o mesmo homem, a pergunta por si mesma não seria uma denúncia? Estava instaurado o conflito: envolver-se entregando o sujeito ou fingir não saber nada e tocar a vida como se nada tivesse descoberto? Depois de muito esquentar a cabeça, optou pela segunda alternativa. Considerou a única saída segura. E o segredo do homem ficou ainda guardado por um bom tempo.

Houve o dia, porém, que Rita ofereceu-se para acompanhar Berê ao hospital que Helena trabalhava. Para o azar de José Anísio, a companheira número um estava de plantão. Rita, em pé ao lado da colega que preenchia a ficha hospitalar, ao ver a foto já vista por Soraya semanas antes, entrou em choque. Fixou o olhar na foto, ficando paralisada por segundos, a ponto de chamar atenção de Berê:

(Continua… )

Leia a parte 2

Sobre Vanessa Barros

Vanessa Barros
Olá! Sou psicóloga e cronista e assino esta coluna, Sua História Numa Estória, cuja proposta é a escrita de crônicas baseadas em histórias vividas por nossos leitores. As histórias são transformadas em ficção provocando reflexões a partir do comportamento dos personagens. Quer ver uma história sua no formato de crônica com personagens transformadores? Basta enviá-la para o e-mail vanessabarros.autora@gmail.com no qual informo maiores detalhes. Participe! Conte-me sua história!