SHINE | UM HOMEM FRACIONADO (Parte 2)

SHINE | UM HOMEM FRACIONADO (Parte 2)

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_ Ritinha. Ritinha. Terra chamando!

_ Esse homem… Esse homem… É o meu marido. _ disse Rita, ainda sem se mexer fazendo crescer na atendente uma tensão inexplicável.

_ O quê? Tá louca, minha filha?_ perguntou Helena certa de que a outra delirava.

_ Esse terno… Eu que comprei pra ele. Dei de presente. Ainda estou pagando. _ falou Rita ainda hipnotizada pela foto, como se dissesse para ninguém.

Helena deu uma gargalhada dizendo em seguida:

_ Ah, qual é? Meu marido comprou esse terno. Pagou à vista. Acorda, querida. Esse homem é o meu marido. Você deve estar louca. Se você insistir em dizer que ele é seu eu vou até aí e te quebro a cara. Combinadas?

_ É o meu marido… _ disse Rita, meio zonza, para Berê, ignorando a ameaça de Helena.

A atendente, embora irritada, louca de ciúme, mesmo com muito esforço conseguia não se desligar do fato de que estava no trabalho e um escândalo ali significaria estar logo em seguida sem emprego. E depois… Coitadinha da moça. Delirava. Jamais aquele homem era ou tinha sido marido dela. Talvez tivesse sido casada com homem parecido e ele a deixou. Custava nada a Helena segurar-se um pouco e ter compaixão. Mas o delírio de Rita era muito rico em detalhes:

_ José Anísio o nome dele. Mecânico de caminhões. A gente se conheceu no bairro Santa Juliana, no Bar do Jabuti. Tem uma cicatriz de queimadura na perna esquerda. Perto do joelho.

O companheiro de Helena era o mesmo de Rita. Não era oficialmente marido de nenhuma, mas considerado assim por elas já que morava em suas casas. Helena não pôde mais negar. Ficando tudo claro, agora sim perdeu todo o equilíbrio até então mantido com certo esforço. Que se danasse o emprego. Agora era o relacionamento com o melhor homem do mundo que estava em jogo. Perdendo as estribeiras, Helena atacou Rita. O bicho pegou. O trem ficou feio mesmo. Sob olhares de outros funcionários, pacientes em espera, acompanhantes, rolaram no chão. Berê apavorada tentando separá-las, quase apanhando também. Gritos, desaforos, “ele é meu” de um lado, “ele é meu” do outro até que alguém acionou a polícia.

Antes que a viatura chegasse, dois enfermeiros que haviam pouco antes deixado seus setores de trabalho foram os únicos que conseguiram apartar a briga. Quando os policiais chegaram, elas já estavam seguras pelos dois homens, mas ainda se atacando verbalmente. E o mais interessante é que o homem continuava sendo o melhor do mundo.

Rita havia se envolvido com homem comprometido. Então ela deveria deixá-lo em paz, acreditava Helena. E esta apesar de ter chegado antes na vida dele, não devia estar satisfazendo-o pois se fosse assim ele jamais se envolveria com Rita, pensava esta. E o homem, errado em nada.

O sargento Ezequiel assumiu o caso. E sob vigilância dos policiais, as mulheres comportaram-se um pouco melhor. Só um pouco. A situação foi explicada ao sargento que ouviu as duas separadamente. Entendendo o caso, sugeriu que o tal super-homem fosse chamado. A enfermeira chefe ofereceu-se para ligar para ele. Saiu de perto das mulheres para que suas vozes tensas não afugentassem o sujeito do outro lado da linha e inventou um motivo corriqueiro:

_ Senhor José, boa tarde. Eu sou Fátima, enfermeira chefe aqui do hospital. A Helena não está passando bem. Já a medicamos, mas é necessário que o senhor a busque e a leve para casa para descansar.

O homem engoliu a isca fácil. É claro que, sendo marido perfeito ele não deixaria de ir. Não só foi, como chegou muito rápido. Viu Helena rodeada por colegas e policiais. Imaginou que o caso era grave. E extremamente terno como era em casa, perguntou à companheira o que havia acontecido com ela. Mas quem respondeu foi a outra que surgiu não sabia ele de onde e também protegida por um policial:

_ Aconteceu que a casa, ou melhor, as suas casas caíram. _ disse Rita deixando José apavorado.

José Anísio não sabia nomear o que sentia. Tremia, gaguejava, suava frio. Chegou a passar mal mesmo diante de todos ali assistindo a tudo. Sentiu tudo, exceto vergonha e arrependimento. Tudo não passava de medo de ser punido de alguma forma.

A polícia tirou os três do hospital para que longe daquela confusão pudessem resolver os rumos de suas vidas. E quem resolveu foram as mulheres. Solução simples, fácil, barata e confortável: uma resolveu que a outra saísse do caso. Como ninguém queria sair, foi sugerido ao homem que ele passasse um tempo longe das casas das duas para que pudessem refletir sobre como ficariam suas vidas dali em diante. Embora contrariado, José aceitou passar os dias na casa de um primo numa cidadezinha próxima. Foram apenas quinze dias, mas vividos pelos três com muita angústia e pelas mulheres  com muita raiva também… Raiva uma da outra!

Foram quinze dias longe fisicamente, mas não conseguia José não entrar em contato com as mulheres. Nem elas evitavam conversar com ele. Muitas ligações e mensagem dele para elas e delas para ele em todos os dias de afastamento. Até que ele conseguiu achar uma solução: faria uma proposta e, se elas aceitassem, ele continuaria com as duas. Por que ele não poderia assumir as duas? Até ali ele não tinha dado conta do recado?

Proposta feita. Proposta aceita. Não sem sofrimento e muita resistência inicial por parte delas. Mas ele não tinha deixado alternativas. Ou ficaria com as duas ou romperia com elas e seguiria seu caminho ou sozinho ou com outra mulher diferente. E esse foi o ponto de desespero. Elas aceitaram, mas acordando que ele seria igualmente dividido. Ou seja, horas de convivência, dinheiro, presentes, passeios, tudo dividido milimetricamente. Assim, se ele passeasse com uma, teria que passear com outra, se comprasse um vestido ou sapato para uma, compraria outros com o mesmo valor para outra e assim por diante. Não admitindo a entrada de outras mulheres no processo e ouvindo um sim para o que impuseram, as mulheres aceitaram ser companheiras de um homem só.

Dali em diante então, seria um dia com uma, o dia seguinte com outra. Os feriados e domingos um com uma, outro com outra, os aniversários com a aniversariante, os aniversários dele, um ano com uma, outro ano com outra. Natal e ano novo, um ano Natal com uma e Ano Novo com outra, no ano seguinte o inverso. Se por acaso precisasse ficar mais horas com uma, num caso de problemas de saúde ou de outra ordem, as horas deveriam ser compensadas com a outra. Se ele conseguisse seguir à risca o que foi contratado, seriam os três felizes para sempre.

Já vivendo conforme o contrato há mais de um ano, Helena fica grávida e a espera de Mateus foi, segundo ela, motivo para contar mais vezes com a presença do “marido”. Não aceitando a gravidez da outra como motivo para quebra do contrato, Rita tratou de engravidar também passando a esperar Luan. Para sorte dos três, nas duas casas nasceram meninos:

_ Menina numa casa e menino na outra não ia dar certo._ disse, certa vez, José Anísio para Rita.

Com os meninos nascidos, a situação ficou muito difícil para o mecânico. Eram duas casas, dois filhos, dois relacionamentos para administrar. E o que dizia respeito ao contrato também incluía os meninos: exatamente o que era feito a um, deveria ser feito a outro. Se um precisasse ficar mais tempo com o pai por estar doente ou qualquer outro motivo, o outro garoto deveria ser compensando com horas a mais. Como era naturalmente impossível a José cumprir a risca as cláusulas do contrato, as mulheres estavam sempre em combate. Sempre que se encontravam havia uma em desvantagem com relação a alguma coisa:

_ Você ficou com ele até 22 horas que eu sei. Na terça ele saiu lá de casa depois das 18, sua espertalhona. Ele vai ficar mais horas comigo amanhã sim senhora! _ disse Rita ao encontrar com Helena numa padaria recebendo agressão verbal em resposta da outra.

_ Eu não aceito esse tênis pro Mateus. O Luan ganhou um de marca muito mais cara! _ brigou Helena com José certa vez por ele ter comprado tênis supostamente mais barato para o filho deles.

Quando Mateus era ainda muito pequeno, Helena passou a participar de um grupo de apoio a mães de primeira viagem no próprio hospital onde trabalhava. O grupo se reunia semanalmente e ela participava depois das horas de trabalho. Como era fato conhecido de muitos sua condição com o pai do garoto, foi bastante honesta com relação a isto no primeiro encontro do grupo causando estranheza na maioria das outras mães, exceto na condutora que a acolheu sem ressalvas. Sentindo-se acolhida, Helena aproximou-se desta mulher, que era médica, recebendo dela conselhos  que considerou importantes. Uma vez em uma de suas conversas particulares, a doutora Cláudia perguntou:

(Continua…)

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Sobre Vanessa Barros

Vanessa Barros
Olá! Sou psicóloga e cronista e assino esta coluna, Sua História Numa Estória, cuja proposta é a escrita de crônicas baseadas em histórias vividas por nossos leitores. As histórias são transformadas em ficção provocando reflexões a partir do comportamento dos personagens. Quer ver uma história sua no formato de crônica com personagens transformadores? Basta enviá-la para o e-mail vanessabarros.autora@gmail.com no qual informo maiores detalhes. Participe! Conte-me sua história!