SHINE | Cartas

SHINE | Cartas

O motivo no qual se apoiava Adonai ao desejar separar-se de Maribel nem ele próprio sabia. Sentia-se deslocado, entendiado, de algum modo vazio e atribuía tais sentimentos ao fato de estar casado. Não conseguia dizer nem para si mesmo se o problema era diretamente ligado à pessoa da esposa ou pelo casamento em si. Sentia, porém, na maioria das vezes, que Maribel nada fazia para ser de algum modo responsável por toda a angústia na qual vivia mergulhado o marido.

Havia dias em que Adonai flagrava-se fazendo intenso exercício mental no qual buscava listar fraquezas e defeitos na esposa que justificassem aquele seu desejo intenso de separação. Como um ser humano qualquer, decerto, Maribel tinha seus defeitos. Mas qual deles era grave, profundo e feio o bastante para fazer com que Adonai desejasse abandoná-la? Este era o problema. Imperfeita como qualquer mulher, ela buscava acertar os passos enquanto esposa. Tinha atributos que levariam muitos homens a invejar seu marido, ele reconhecia, o que o deixava ainda mais confuso. Em resumo, era uma boa mulher, uma esposa da qual ele não poderia se queixar.

Apesar de não haver queixas, contudo, havia o desejo de separação. Queria o homem encontrar fora de si o motivo para um mal estar que o acompanhava. Não era feliz e isso,  segundo certezas próprias, o motivo de sua insatisfação era o fato de estar casado e numa relação tão rotineira e enfadonha.

Em momento algum surgiu em sua mente a ideia de questionar a si mesmo, seus valores, seus desejos, sua responsabilidade sobre tudo o que acontecia _ ou não acontecia _ que o levava à sensações tão ruins. Embora de certo modo admirasse Maribel, odiava estar casado com ela. E era cansativo simular sentimentos o tempo todo.

Maribel percebia que algo acontecia com aquele homem que a cada momento ficava mais estranho e isolado. Ele não era do tipo que causava problemas. Assim como o marido, ela também não tinha grandes problemas sobre os quais se queixar. Mas Adonai estava se tornando sim um estranho dentro de casa e eram inúteis tentativas de solução para o problema buscando conversar, identificar o que andava errado entre eles e tentar reorganizar suas vidas. Tentar, ela já havia tentado, mas não sentia nele a mesma necessidade de ver as coisas fluindo bem.

Querer separar-se se intensificava tanto no coração de Adonai que, já há meses consciente de que casamento definitivamente não era sua praia, passou a ficar horas com a ideia fixa num jeito de sair do casamento sem ser questionado por ninguém. Já estava cansado dos amigos com quem já havia conversado sobre seu problema e estes perguntarem constantemente sobre o comportamento da mulher e, já que não havia nada que a desabonasse, se ele realmente seria capaz de cometer uma loucura daquelas. Se a mulher era tão boa, diziam os amigos, ele que procurasse consertar o casamento e seguir em frente. Mas ele não suportava mais a ideia.

Para os amigos a questão era óbvia: Adonai não amava mais Maribel ou talvez nunca a tivesse amado. Chegou o tempo em que conviver com ela passou a ficar insustentável. Perguntado, insistiu muito na negação de existência de outra mulher. E isto deixava os rapazes muito intrigados.

Para os amigos era difícil ajudar Adonai. Ele não sabia o que queria. Não sabia o que sentia. Desejava destruir uma relação da qual não tinha do que se queixar. Ou dizia não ter. Eram muitas as perguntas que surgiam sempre que o assunto vinha à tona. Procuravam não se intrometer, exceto Delmiro, um rapaz de índole um tanto questionável. Este amigo tinha pensamentos bem semelhantes aos de Adonai quanto a casamento, compromissos, mulheres, etc. E a conexão com esse sujeito deu verdadeira injeção de ânimo a Adonai que, embora quisesse tornar-se novamente um homem livre, não havia ainda dado sequer um passo em direção ao que queria. Como Maribel ia se sentir? E ele ia dizer o que aos familiares dos dois?

Foi Delmiro quem encontrou uma solução bem plausível. Quem disse que o motivo deveria ser real? Porque não simularem um motivo?

_ Eu vou te ajudar, meu amigo. Eu mesmo escreverei uma carta anônima para você na qual o farei convencer-se de que Maribel tem um amante. Use a carta contra ela e poderá conseguir o que quer sem problemas. _ Delmiro disse a Adonai.

Contraditoriamente, Adonai não se sentiu feliz com a ideia. Rechaçou-a de início. Como? Perguntava-se. Expor a Maribel a uma situação daquelas? Não tinha jeito de eles resolverem de outra forma? Maribel não merecia aquilo. Ele só queria descasar-se e não destruir a vida daquela mulher por quem não sentia nada de especial, mas  também não tinha do que reclamar. Ela era tão sem graça. Inofensiva. Para que uma sacanagem daquelas?

_ Bom, escolha aí entre resolver seus problemas ou ficar se derretendo de pena dela._ Provocou Delmiro. _ O tempo está passando, o mundo todo lá fora cheio de oportunidades e você, covarde, não toma jeito na vida! Fui.

Com pouca ou nenhuma segurança em si mesmo, Adonai era indefeso quanto à opinião dos outros a seu respeito. Ser chamado de covarde falou mais fundo em seus sentimentos do que o quanto pesaria sua consciência levar a cabo o plano que tanto feriria uma mulher por quem jamais tivesse sido prejudicado. Foram alguns dias de muita indecisão até chamar o amigo mau caráter para uma conversa e aceitar enfim que o tal plano fosse executado.

Não à toa o rótulo de covarde ferira tanto a alma do moço. Foi muito duro ouvir sobre uma característica que ele possuía de verdade. Quem senão um belo covarde faria tamanha sacanagem com um ser humano? Sua ação naquele plano seria duplamente covarde primeiramente por não assumir com maturidade o desejo de sair do casamento assumindo os custos da decisão a ponto de se esconder num jogo sujo de falsa acusação contra a mulher.

A carta foi então foi cuidadosamente escrita por Delmiro e Adonai chegaria em casa com ela dobradinha e escondida em algum dos bolsos. Simularia estar em profundo sofrimento por causa da traição de Maribel e, diante das reações de defesa da mulher, apresentaria a prova: a carta escrita por um amigo cujas palavras, ditas com gravidade, expunham todo o comportamento leviano da esposa do qual ele jamais estivera o mais leve sinal. Esta cena ia se formando em sua mente até que chegou em casa e diante da esposa sentiu-se completamente incapaz de tal feito. Receoso,  comportou-se como de costume.

Mentindo para si mesmo sobre os motivos pelos quais não executara o plano, julgando-se bom demais por não ser capaz de fazê-la sofrer, optou por caminho ainda mais fácil: a saída silenciosa no dia seguinte, deixando sobre o criado do quarto duas cartas que por certo seriam lidas tão logo ela acordasse.

O sofrimento de Maribel ao ler as cartas_ primeiro leu a de Delmiro, sem assinatura_ era inominável. Como Adonai poderia acreditar numa falácia daquela? Era óbvio que se tratava de mentira de alguém que por algum motivo não gostava dele, ou dela, ou dos dois juntos. Não era possível que o marido pudesse ter sido tão ingênuo. Carta anônima! Maribel horrorizava-se. Era aquilo sua vida real ou capítulo de uma novela? Acreditar no que se passava era quase impossível. Como alguém poderia ser tão mau a ponto de fazer duas pessoas que nunca prejudicariam a ninguém sofrer daquele jeito? Sofria ela sendo acusada daquela forma. Sofria o marido sentido-se traído e enganado sem jamais, nem em sonho, ter sido.

Enquanto Maribel lia a carta, Adonai ganhava a estrada. Tendo finalizado a carta dizendo que voltaria, depois que estivesse mais calmo e sofrendo menos, para tratar dos papéis do divórcio, o marido pensava mesmo em passar um bom tempo longe. Não tinha recursos para lidar de perto com o sofrimento da mulher que era, ele sabia, a verdadeira vítima naquela história toda. Sem a mesma frieza de Delmiro, embora o caráter fosse tão ruim quando o do amigo, não conseguia não pensar em Maribel em casa. Por toda viagem via a imagem da mulher ao ler os dois papéis deixados a seu lado enquanto dormia. Mas era normal aquele sentimento, ele dizia a si mesmo. Com o tempo ele se acalmaria e, vivendo como merecia viver, aquelas imagens o deixariam. Maribel, por gostar tanto dele, estava sofrendo horrores, ele sabia. Mas, fazer o quê? Com o tempo, tudo tomaria seus devidos lugares. Ela se acostumaria à vida solitária e ele viveria como bem quisesse.

(Continua…)

Sobre Vanessa Barros

Vanessa Barros
Olá! Sou psicóloga e cronista e assino esta coluna, Sua História Numa Estória, cuja proposta é a escrita de crônicas baseadas em histórias vividas por nossos leitores. As histórias são transformadas em ficção provocando reflexões a partir do comportamento dos personagens. Quer ver uma história sua no formato de crônica com personagens transformadores? Basta enviá-la para o e-mail vanessabarros.autora@gmail.com no qual informo maiores detalhes. Participe! Conte-me sua história!

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