SHINE | A Fuga

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_ Vai lá pra fora e entra no carro vermelho. _ ordenou Roberto à recepcionista do estabelecimento.

_ Como, senhor Roberto? Não entendo!

_ Não é para entender, minha filha! É para entrar no carro. Anda! Vai! Vai logo! Não podemos perder tempo.

Letícia, sem entender mesmo o que o chefe queria com aquela ordem, foi rápido até o carro vermelho no qual estava um cliente da casa. Abriu a porta e, sem nada dizer, entrou e sentou-se no banco do carona. Ouviu do dono do carro:

_ Oi. Tudo bem? O Roberto disse que é melhor eu ficar por aqui por enquanto. É para não sair até que eles encontrem uma solução para o problema. _ disse o homem, nervoso batendo dedos no volante e imaginando que Letícia soubesse do que se tratava.

A moça entendia cada vez menos. Disse que estava tudo bem, embora sentisse que algo muito estranho acontecia por ali. Quanto a ela, estava ali naquele carro com aquele sujeito não sabia porque e apenas obedecia às ordens do chefe.

Próximo ao carro vermelho estava outro cujo porta-malas estava aberto. Roberto quase gritava com uma cliente:

_ Anda! Entra aí! _ dizia indicando o porta-malas do carro para que ela entrasse.

_ Ficou louco? Não entro nunca! Você não tem ideia do que está me pedindo!

_ Tenho noção perfeita do que estou fazendo, minha filha. E temos pouquíssimo tempo. Entra logo!

_ Eu sou claustrofóbica. Você quer que eu morra?

_ Querer eu não quero. Mas ao que parece você vai morrer de qualquer jeito. Quer morrer como? Sufocada aí dentro ou com um tiro bem no meio da testa? Não brinque jamais com um homem enfurecido de ciúme! Jamais! Entra!

O homem a quem Roberto referia-se não era ele próprio. Marleide, a cliente, sabia muito bem de quem se tratava. Roberto queria, acima de tudo, salvar a vida dela e ela percebia isso claramente. Isso além de evitar problemas para ele próprio. Depois de alguma resistência, a mulher aceitou entrar no porta-malas do carro no qual seria levada para casa ou para o endereço que tinha passado para ele.

Do carro vermelho, Letícia e o outro homem observavam todos os movimentos muito atentamente. Ele torcendo por Roberto. Ela cada vez mais confusa.

Foi a conta! Logo que o carro de Roberto saiu do estabelecimento, um homem entrava a pé, pois teria deixado o veículo propositalmente um pouco longe. Visivelmente irritado andava em direção ao carro vermelho. Aproximando-se, o sujeito, muito nervoso, ameaçava:

_ Eu mato vocês!_ disse, logo em seguida xingando o casal de belos palavrões. _ De hoje vocês não passam!

Letícia entrou em desespero. Roberto havia tramado contra ela. Por que? O que ela fizera de tão mal, de tão absurdo? O chefe a odiava o suficiente para colocá-la naquela situação? Morreria no lugar de outra pessoa?

Percebendo que Letícia não havia sido avisada por Roberto sobre o porquê de estar ali no carro com um cliente, o homem, que sabia muito bem o que estava acontecendo, sugeriu que ela ficasse calma. Disse que não era nada com ela e que, no fim, tudo daria certo.

Roberto já havia ganhado as ruas quando o tal homem se aproximou do carro de Geraldo, o cliente que estava no carro vermelho. O gerente da casa pisava fundo no acelerador provocando na cliente, presa no porta-malas, as mais variadas sensações. Ela queria contorcer-se, mas como? Sentia medo, raiva, susto, sofria pancadas na cabeça ou em outra parte qualquer do corpo sempre que o carro passava por algum buraco ou obstáculo. Respirava mal. Chorava de medo. Mas tinha esperança de sair bem daquilo tudo. Sofria também por não estar certa de que aquele plano de Roberto funcionaria. Passava ainda por seus pensamentos a decisão de nunca mais fazer nada que desse causa a uma situação daquela. Faria em algum outro momento da vida viagem pior que aquela? Provavelmente não, embora admitisse estar vivendo naquela ida para casa uma aventura e tanto. Ah… Se ela pudesse contar para alguém…

E enquanto Roberto e Marleide ganhavam as ruas tentando evitar situação que os faria protagonistas de páginas policiais de algum jornal, lá no motel onde Roberto trabalhava como gerente e Letícia como recepcionista, Lúcio Fonseca, o marido de Marleide era despistado por Geraldo:

_ Oi, Fonseca! Você por aqui? Quanta coincidência? Você também não é fácil não, hein? Minha amiga Marleide sabe de suas visitas a esta nobre casa?

Lúcio paralisado, olhando para Letícia, conseguiu dizer apenas:

_ Eu pensei que fosse a…

Mas Geraldo não o deixaria dizer o nome de quem ele procurava.

_ A… Quem? Quem você pensou que estivesse aqui comigo? _ perguntou, cínico, o amante de Marleide para o marido traído.

_ Eu realmente não sei… Eu… Eu… Eu…_ disse Lúcio muito confuso.

O homem julgava-se brutalmente enganado. Não pela esposa. Como poderia ele ter pensado algo tão inadequado a respeito dela? O amigo que disse que vira a esposa dele com Geraldo entrando naquele lugar queria o que afinal de contas? Prejudicar o casal? Lúcio sentia-se um tolo perfeito. E como há gente má e que deseja muito o mal dos outros por aí… Nesse espírito seguiam os pensamentos do marido que se irritava até mais que antes, mas não mais com a esposa. A mulher que um colega vira entrando naquele motel não era Marleide. E o pior… A que estava realmente com Geraldo era até uma moça muito diferente. O que tal colega queria? Estava interessado na Marleide ou o quê?

(Continua…) parte 2

Sobre Vanessa Barros

Vanessa Barros
Olá! Sou psicóloga e cronista e assino esta coluna, Sua História Numa Estória, cuja proposta é a escrita de crônicas baseadas em histórias vividas por nossos leitores. As histórias são transformadas em ficção provocando reflexões a partir do comportamento dos personagens. Quer ver uma história sua no formato de crônica com personagens transformadores? Basta enviá-la para o e-mail vanessabarros.autora@gmail.com no qual informo maiores detalhes. Participe! Conte-me sua história!