Resenha | A Torre Negra

Resenha | A Torre Negra

Depois de muito sangue, suor e lágrimas, enfim chegamos à conclusão da épica busca pela Torre Negra, considerada pelo próprio Stephen King sua obra prima. No sétimo e último volume da série (desconsiderando-se o spin-off O Vento pela Fechadura) finalmente descobrimos qual o destino do ka-tet liderado pelo pistoleiro Roland Deschain e nos damos conta da genialidade desse enorme romance.

Partindo do ponto onde A Canção de Susannah termina, encontramos o grupo de pistoleiros lutando para se reunir novamente. Agora todos sabem que o objetivo final está mais perto do que nunca, mas ainda é preciso percorrer a parte mais crítica do caminho, onde os seguidores do louco Rei Rubro aguardam por eles, além de uma ameaça ainda mais perigosa. Consciente de que esta pode ser a última batalha, o ka-tet arma-se e parte em direção ao perigo para salvar os Feixes restantes que sustentam a Torre. Em meio a conflitos psicológicos, combates violentos e mortes, Roland e seus amigos vão avançando passo a passo rumo ao centro de todos os mundos.

Este é o maior livro dentre os sete. Dividido em cinco partes, vamos acompanhando o desenvolvimento da narrativa e, conforme isto vai acontecendo, sentimos nitidamente nossa própria ansiedade aumentar à medida que os personagens se aproximam mais da Torre. Neste ponto, o mérito é todo de King, que empregou sua melhor narração para nos atacar com diferentes emoções: tensão, angústia, medo, esperança. Experimentamos todos esses sentimentos conforme viramos as muitas páginas. E a raiva também está presente. Raiva do autor, que soube muito bem criar uma apreensão crescente, ao anunciar tragédias iminentes. Chega a ser um pouco sádico e aposto que ele se divertiu muito escrevendo isso. Porém uma força maior nos leva a prosseguir a leitura, pois sabemos que, bem ou mal, a história precisa ter um fim.

Esse efeito sobre os leitores ocorre principalmente porque o foco principal desta obra esta voltado para o psicológico dos personagens, os quais precisam lidar com diversas situações e problemas sem perderem o rumo. Isso se resume bem na fala de um personagem quando ele diz: você só começa a ficar com medo de deixar cair os ovos quando já está quase em casa. Tal inquietação permeia a trama, atingindo tanto os protagonistas quanto seus antagonistas, de forma que nenhum dos lados tem certeza absoluta do próprio sucesso ou derrota.

Se pararmos para analisar todo o romance, desde o primeiro volume até este, percebemos que a busca do Pistoleiro é uma verdadeira epopeia. Entretanto este último livro, sozinho, consegue ter o mesmo peso do conjunto ao descrever, em cinco atos, a reta final dessa saga. Quando chegamos ao desfecho e olhamos para trás, a sensação é de que estamos nessa jornada há muito tempo, que os acontecimentos narrados no começo já estão distantes no passado. Contudo isso não acontece por ser uma leitura demorada, apesar da quantidade de páginas, mas sim porque foi a noção temporal que o autor quis passar para nós.

King garante que o romance da Torre Negra tem vida própria e seguiu o próprio curso. Ele foi apenas um contador de histórias. Mesmo assim não podemos deixar de reconhecer sua imaginação fora do comum e sua habilidade com as palavras. Foram tais atributos que misturaram ficção com elementos e pessoas reais de várias épocas e mundos diferentes, até que o próprio conceito de realidade fosse questionado. Nasceu, assim, o que os estudiosos chamam de metaficção, apesar de o escritor deixar claro que não gosta desse termo.

Então, é dessa forma ousada que uma das melhores sagas da atualidade se encaminha para sua conclusão. Mesmo que 33 anos separem a publicação do primeiro volume (O Pistoleiro, em 1970) e do último (A Torre Negra, em 2003), a unidade se manteve para nos presentear com um final grandioso para um romance de igual magnitude.

Adicione este livro à sua estante!

Conheça os volumes anteriores de A Torre Negra:

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.