Resenha | Todos os Mentirosos

Resenha | Todos os Mentirosos

Na busca por novos autores nacionais, um título em particular me chamou a atenção. Trata-se do livro Todos os Mentirosos, o primeiro do escritor paranaense Lucas Mota, que criou uma ficção onde a dependência da mentira muitas vezes define os relacionamentos no âmbito familiar, profissional e, principalmente, político.

A trama conta a história de Leonardo Rodriguez, um jovem que desde pequeno se irritava com a hipocrisia e falsidade a sua volta. Frustrado com o emprego, descrente nas pessoas e enfrentando um relacionamento conturbado com a mãe, Leo tenta seguir a sua vida sendo sempre sincero, por mais que isso seja difícil. Até que, após um episódio estressante, ele descobre que possui uma habilidade incomum: fazer as pessoas falarem a verdade, mesmo contra a vontade delas. A partir daí, o rapaz passa a arrancar a verdade das pessoas a todo custo, trazendo algumas consequências com isso.

Com uma narração fluida em primeira pessoa, vamos conhecendo um pouco mais sobre o modo de pensar de Leonardo e o que o motiva nessa procura pela honestidade. Mas, apesar de uma única verdade ser melhor que muitas mentiras, logo no começo já podemos perceber que Leo é extremo. Uma das primeiras coisas que faz ao descobrir seu dom é testá-lo abordando um casal aleatório na rua, obrigando-os a confessar suas traições um ao outro. Por mais que os ideais dele sejam justificáveis, temos de nos perguntar até onde uma mentira pode ser nociva e quanto dela tem a intenção de autopreservar quem a contou. As pessoas mentem por diversas razões: por ganância, desvios de caráter, má índole. Mas também por medo ou para proteger algo ou alguém.

Contudo, mesmo que o protagonista não faça essa diferenciação, ele mantém seu foco principal no lugar certo: nos corruptos. Toda a determinação dele se volta para um político em particular e isso resulta em diversos acontecimentos na vida profissional e pessoal de Leo, contribuindo para que ele amadureça e tenha certeza de quais são seus verdadeiros objetivos e reais intenções.

Agora, tomo a liberdade de deixar minha opinião pessoal bem clara quanto ao livro. No primeiro momento, a conclusão da trama não me deixou nem um pouco satisfeito. Depois, analisando melhor qual a proposta da obra, vi que precisava enxergá-la sob outro ponto de vista. Sua mensagem central está mais voltada para o autoconhecimento do que para outros aspectos. Isso não elimina totalmente a frustração, mas faz a leitura valer a pena.

Assim, Todos os Mentirosos consegue nos prender graças a sua proposta e também nos surpreender com seu final que foge do óbvio dentro de uma ficção. Entretanto, quando encaramos a situação de acordo com a realidade dependente de mentiras na qual vivemos, o desfecho era mais que esperado. E por mais que não nos agrade, abre nossos olhos.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.