Resenha | Pornopopéia

Resenha | Pornopopéia

Apenas pelo título, já pude ter uma ideia bem aproximada do que iria tratar o livro do escritor paulistano Reinaldo Moraes. Porém, mesmo prevendo seu conteúdo, Pornopopéia foi um romance que chocou pela sua vulgaridade e futilidade.

A obra conta as “aventuras” de Zé Carlos, um cineasta fracassado que ganha a vida fazendo vídeos promocionais para empresas. Quando Zeca é contratado para criar um vídeo sobre embutidos de frango, ele deixa o trabalho em segundo plano para se entregar a farras envolvendo sexo, álcool e drogas. A partir daí, ele se mete em uma encrenca atrás da outra, de onde tenta sair criando uma teia de mentiras.

Até aí, poderia ser aquela velha história do rebelde inconsequente que não quer nada com a vida, não fosse o fato de Zé Carlos ser um homem de 42 anos…Ele mesmo faz a narração da trama e a divide em duas partes, de acordo com o local onde os acontecimentos se dão. Os relatos seguem a ordem dos seus pensamentos, que muitas vezes se dispersam e começam a divagar (em boa parte graças ao efeito das drogas e do álcool).

Isso torna a leitura cansativa e por vezes irritante, já que é repleta de gírias e expressões usadas apenas por grupos específicos de pessoas. Sem contar a obscenidade escancarada em cada página. Te desafio a abrir o livro aleatoriamente em uma de suas 475 páginas e não encontrar nenhum palavrão, expressão chula, frase preconceituosa ou machista.

Com força de vontade e ignorando toda a torpeza do Zeca, é possível caminhar com a leitura. Até chegar ao cúmulo do absurdo, onde ele compra uma lula morta para se masturbar com ela… (E sim, isso foi um spoiler intencional, com a intenção de te desmotivar a ler essa epopeia pornográfica).

Por fim, depois de tantas mentiras e trapaças, não ficamos sabendo ao certo o que aconteceu com o personagem. Ele próprio, na sua verborragia, enumera algumas possibilidades do que poderia acontecer logo depois que ele encerrasse sua narrativa. Cabe a quem conseguir chegar até o fim torcer pelo melhor ou pelo pior desfecho para ele.

Sendo assim, Pornopopéia melhor se encaixa no gênero “literatura pornográfica“, sendo um livro que eu teria vergonha de recomendar para alguém. Então leia por sua conta, risco e estômago.

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.

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