Resenha | Passagem para a Escuridão

Resenha | Passagem para a Escuridão

Uma boa fantasia medieval envolve intrigas, disputas pelo trono e pelo controle de um reino, batalhas sangrentas e lendas que na verdade escondem muitos fatos reais. Essa foi a mistura para criar o primeiro volume de Passagem para a Escuridão, de Danilo Sarcinelli, escritor que esteve presente no 1º Stalo e que foi nosso convidado no Novos Autores nº 15.

A história gira em torno das lendas que narram como Constâncio – guiado pelo deus-sol Ravi – derrotou a legião de demônios de Arkmal e trancou a passagem para o submundo. Desde então a família Dante vem governando a Tibéria de maneira justa e pacífica. Porém, após o exílio do pretenso herdeiro, César Dante, diversas facções surgem na briga pelo poder, dispostas a qualquer coisa para controlar o reino. Em meio a essa disputa, está Lúcio Dante, um rapaz prestes a completar 18 anos e que, na sua imaturidade e inexperiência, pensa apenas em viver seu grande amor. Contudo, Lúcio faz uma descoberta que mudará para sempre sua vida e a de todos a sua volta.

Ao longo da leitura, vamos captando vários elementos que serviram de inspiração para o autor: desde as séries literárias de George R. R. Martin e de Bernard Cornwell até os jogos de RPG. Entre referências sutis e outras mais óbvias, Danilo reuniu o melhor de cada obra para criar seu próprio universo medieval. Por ser o primeiro livro, este introduz os personagens e o todo o contexto político-social, de modo que o foco principal são as conspirações e alianças que futuramente explodirão em guerra.

Um ponto incômodo é o romance exagerado: amores impossíveis devido a classes sociais distintas, amores não correspondidos, amores proibidos com reviravoltas novelescas. Nada impede que haja romances em tramas medievais, mas geralmente estes são mais efêmeros e carnais e não tão sentimentais.

Entretanto, é importante esclarecer que uma das características de destaque do livro é se tratar de uma jornada de amadurecimento. Os protagonistas ainda são jovens, inexperientes e imaturos. São pessoas da corte que sempre viveram no conforto e, de uma hora para outra, veem-se obrigados a lutar por suas vidas e pelas de seus companheiros em um mundo de injustiça e violência. Assim, podemos esperar que no próximo volume veremos essa maturidade tomando forma e pesando sobre as escolhas de cada um deles.

Além disso, uma coisa muito interessante que a narrativa proporciona é a reflexão sobre quem são os verdadeiros vilões, algo que não sei dizer se foi proposital ou não. Entre adoradores de demônios e fanáticos religiosos essa distinção não fica clara. Porém isso nos permite pensar sobre os limites aos quais alguém pode chegar para atingir seus objetivos e se eles são justificáveis ou mesmo necessários.

O próximo volume revelará o desfecho dessa jornada e qual foi o impacto dela sobre todos os envolvidos. Sendo assim, Passagem para a Escuridão se apresenta como uma obra sobre amadurecimento em todos os aspectos, tanto para os personagens quanto para o escritor. Danilo Sarcinelli mostra grande talento com as palavras, criatividade para suas histórias e, principalmente, paixão pelo que faz.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias

Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.