Resenha | Origem

Resenha | Origem

Dan Brown, um dos autores de suspense mais lidos no momento, lançou em 2017 seu livro mais recente: Origem. Com ele, reencontramos Robert Langdon, o professor de Simbologia de Harvard que deu fama ao escritor em O Código da Vinci. Agora, o protagonista se vê no meio de uma batalha entre a religião e a ciência.

A narrativa começa com Langdon chegando ao Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha, para assistir a uma apresentação de seu ex-aluno, o bilionário Edmond Kirsch. O futurólogo promete responder a duas perguntas elementares: de onde viemos? Para onde vamos? Tal revelação tem o poder de destruir a base de todas as religiões e quebrar diversos paradigmas. Porém, quando a noite começa a dar errado, Robert precisa deixar o local às pressas na companhia de Ambra Vidal, a diretora do museu. Juntos, eles iniciam a busca por uma senha que dará acesso à grande descoberta de Kirsch mas, para isso, precisarão enfrentar um adversário influente que aparentemente se esconde no Palácio Real Espanhol, além de fanáticos religiosos dispostos a tudo para silenciar essa informação revolucionária.

Como percebemos pela sinopse, a estrutura típica de Brown se mantém: o acadêmico, uma companheira bela e inteligente, um segredo bombástico e um vilão oculto. Entretanto, por mais que a receita seja a mesma, ele diferenciou os ingredientes. Dessa vez, as obras de arte clássicas ficam de lado para dar lugar à Arte Moderna; e não há tantos códigos complexos para serem decifrados. Na verdade, o foco está voltado para fatos mais científicos e tecnológicos. Sem contar a mudança no cenário com a trama totalmente ambientada na Espanha. Para aqueles que gostam da obra de Carlos Ruiz Zafón, é interessante ver a cidade de Barcelona sob outro olhar e saber mais sobre sua história.

Outra característica que representa um diferencial é o contraste ideológico apresentado na obra, que está mais marcante que nos livros anteriores. O tema central se baseia na oposição entre ciência e religião, sendo esta última duramente criticada. Contudo, também vemos os conflitos internos de cada uma das partes envolvidas. Dentro do culto religioso há a divergência entre os liberais e os conservadores, chegando ao extremo do fanatismo. Na ciência, estão as questões éticas, principalmente no que diz respeito ao uso da tecnologia, que por sinal está presente a todo momento como uma ferramenta poderosa para o bem ou para o mal.

Por falar em tecnologia, um dos personagens mais atraentes é um computador. Trata-se de uma inteligência artificial criada por Kirsch para auxiliá-lo em seu trabalho, como a Super Máquina, aquele carro falante da série dos anos 80. Por isso, em alguns momentos ele aparenta ser deus ex machina – uma solução miraculosa para um problema utilizada pelo autor – mas ainda assim acrescenta muito ao romance. Todavia esta não é a primeira vez que Dan Brown usa um supercomputador em uma de suas histórias. Isso já ocorreu em Fortaleza Digital, onde a NSA dispunha de um poderoso computador capaz de decifrar qualquer código. E, coincidência ou não, parte da narrativa também se passa na Espanha.

Infelizmente, lidar com acontecimentos impactantes traz um ponto negativo nas obras de Brown a partir do momento em que ele não desenvolve as implicações disso a longo prazo. Obviamente isso estenderia demais o livro, mas uma breve consideração sobre isso seria bem-vinda. Tanto Anjos e Demônios como Inferno e Origem trazem revelações com grande impacto mundial, porém suas consequências não são exploradas e caem no esquecimento entre um livro e outro, exceto a breves referências a Código da Vinci.

Mas ainda que exista esse detalhe, Dan Brown continua recheando seus livros de História, Ciência e Arte para contextualizar uma ficção tão bem fundamentada que se torna difícil distinguir o que é realidade e o que é apenas fantasia. Só por isso, ler Origem ou qualquer outro de seus trabalhos garante um bom divertimento.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias

Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.