Resenha | O Vilarejo

Resenha | O Vilarejo

É da natureza humana pecar. Seja em maior ou menor intensidade, resistir às tentações que nos cercam é uma tarefa difícil. Muitas pessoas conseguem, porém outras sucumbem de maneira destrutiva ao pecado. E n’O Vilarejo, é exatamente a este último tipo de gente que somos apresentados pela narração assustadora de Raphael Montes.

Três cadernos são encontrados em meio à coleção de livros de uma velha senhora. Tais cadernos apresentam ilustrações perturbadoras e textos escritos em uma língua morta chamada cimério. Após serem traduzidos, descobre-se que a narrativa foi dividida em sete capítulos e que cada um deles é intitulado com o nome de um demônio, o qual representa um dos sete pecados capitais: luxúria, inveja, soberba, gula, preguiça, ganância e ira. Desse modo, somos apresentados aos moradores de um sombrio vilarejo de localização desconhecida, onde a capacidade para atos macabros parece ser inerente à população.

Este é um livro pequeno, com menos de 100 páginas. Cada um de seus sete capítulos pode ser lido separadamente, visto que contam a história de um habitante do Vilarejo por vez, em épocas diferentes. Porém, as narrativas se interligam com elementos em comum, de modo que ao final da leitura montamos um quebracabeça sobre esse lugar sinistro. Essa habilidade que Raphael Montes mostrou ao criar uma trama de peças aparentemente soltas que se juntam para formar algo maior é um dos pontos de maior evidência da obra.

Outro ponto forte é a forma como os fatos são contados. Ficamos horrorizados com a capacidade humana para a maldade, levada por motivos tão mesquinhos e hipócritas. A escrita objetiva contribui para que experimentemos toda a crueldade ao redor. Mas, além das pessoas, o próprio ambiente é hostil, com uma atmosfera pesada que perdura ao longo do tempo. Isso nos faz questionar até que ponto o local a nossa volta eleva nosso nível de desespero e determina a gravidade de nossas ações. Obviamente, isso não é uma justificativa para atos tão terríveis, já que temos que levar em conta o fator escolha. Entretanto, quando esses pecados já estão enraizados nas pessoas, basta o estimulo certo para trazê-los à tona.

Algo que merece destaque são as ilustrações feitas por Marcelo Damm para incrementar a obra. Sem elas, o desenvolvimento não seria comprometido, contudo elas aumentam o clima soturno, com traços e cores que buscam passar exatamente essa sensação melancólica. E fica o conselho de não folhear as imagens antes da leitura, para não estragar as surpresas de cada conto. Já o toque final está nas manchas vermelhas que pontuam algumas páginas, como se todo aquele sangue derramado estivesse literalmente em nossas mãos.

É por esse motivo que um livro tão pequeno pode nos impactar de maneira tão impressionante até sua última página, seja pela descrição fria das cenas, ou até mesmo pelos estímulos visuais. Assim, Raphael Montes mais uma vez nos apresentou um ótimo trabalho, reforçando sua habilidade como escritor de terror e atirando na nossa cara o poder destrutivo das tentações.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.

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