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Resenha | O Talismã

Resenha | O Talismã

Quando dois autores consagrados no gênero do terror se juntam para escrever uma obra de fantasia, é certo que o resultado apresentará aventura, suspense e uma boa dose de horror. Prova disso é O Talismã, livro que surgiu da parceria entre Stephen King e Peter Straub.

Na trama, acompanhamos Jack Sawyer, um menino de 12 anos em busca de um poderoso artefato conhecido apenas como o Talismã. Tal peça é o único remédio que pode curar sua mãe, uma atriz decadente que está morrendo aos poucos devido ao câncer. Mas para consegui-lo, o garoto terá de atravessar não só os Estados Unidos de uma costa à outra, mas também uma dimensão paralela chamada simplesmente de Os Territórios. Lá, Jack descobre a existência dos Duplos, reflexos de algumas pessoas que conhece em seu mundo. Dentre eles, está a rainha dos Territórios, Laura DeLoessian – Duplo de sua mãe – que também está à beira da morte. Isso aumenta ainda mais a urgência do rapaz para encontrar o objeto, porém ele precisa tomar cuidado com um inimigo que deseja impedi-lo a qualquer custo.

O sobrenome do protagonista já nos dá uma pista do que encontraremos na história: Sawyer é uma referência a Aventuras de Tom Sawyer, um clássico do escritor americano Mark Twain. Já durante a leitura, podemos encontrar paralelos com Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. O que corrobora essa afirmação é o papel de Speedy Parker, o zelador de um parque de diversões que serve como uma espécie de guia para Jack dentro do mundo fantástico dos Territórios. Indo um pouco mais além, a dinâmica criada entre os Duplos é parecida com o que podemos ler no romance O Duplo, de Dostoievski.

Entretanto, essas não são as referências principais. Mesmo sendo um livro de autoria compartilhada, King e Straub nunca definiram exatamente qual foi a contribuição de cada um para o enredo. De qualquer forma, fica evidente que O Talismã faz parte do multiverso de Stephen King, o qual gira em torno da Torre Negra. A jornada em si se assemelha muito à procura do pistoleiro Roland Deschain pela Torre, mas aliado a isso há o conceito de mundos alternativos que influem uns nos outros.

Deixando um pouco de lado as associações com outras obras, uma característica particular dessa narrativa é a escolha do personagem central. Ao mesmo tempo em que Jack passa por provações que até mesmo um adulto teria dificuldade de encarar, ele ainda mantém um olhar deslumbrado sobre as coisas ao seu redor, típico de uma criança. Enquanto ele demonstra uma sabedoria e esperteza acima do normal, ele também é um garotinho que deseja correr para os braços da mãe e esquecer todos os problemas. Isso faz dele uma figura complexa e com diversas camadas de profundidade.

Mesmo com todos esses pontos positivos, existem coisas que poderiam ter sido melhor desenvolvidas e outras deixadas de lado. O worldbuilding, ou seja, a criação desse mundo fantástico, estabeleceu algumas regras sobre a relação das duas dimensões no começo da narração, mas parece que as deixou de lado perto do fim. Além disso, a prolixidade já conhecida do King está presente. Alguns capítulos e passagens são dispensáveis para o contexto geral. Nesse caso, o excesso de informações não agregou ao cenário geral como fez no contexto apocalíptico de A Dança da Morte.

Felizmente, isso é perdoável diante do que O Talismã proporciona ao leitor. Torcemos pelos personagens, amamos alguns, odiamos outros e nos empolgamos com o que é descrito, algo que já era esperado visto o talento dos nomes que compartilham a autoria.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.