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Resenha | O Leão do Oeste – A Fúria do Amaldiçoado

Resenha | O Leão do Oeste – A Fúria do Amaldiçoado

Livros que pegam os costumes e a cultura de determinada região e os utilizam como pano de fundo para criar uma trama fantasiosa geralmente são muito envolventes. Em O Leão do Oeste – A Fúria do Amaldiçoado, o escritor André Carvalho lançou mão desse recurso para nos transportar para a África subsaariana.

O Império do Manden, antes pacífico, agora é negligenciado por seus governantes. O comércio de mão de obra escrava para a extração do ouro é o que movimenta a economia. Inconformado, Kankou Musa, um homem que possui uma maldição que lhe permite se comunicar com os animais, decide mudar essa situação e acabar não só com a escravidão de seu povo, mas também com a caça a amaldiçoados como ele. Enquanto percorre a savana, Musa conhece uma criança chamada Candice. Ela é uma escrava fugitiva e está sendo perseguida pelos Portadores da Aljava, a elite dos guerreiros imperiais. Durante a convivência dos dois, a menina desperta sentimentos conflitantes no amaldiçoado: ternura e vingança. Assim, ele decide dar início ao seu plano e acabar de uma vez por todas com o Império.

A História africana é rica em detalhes, costumes e tradições. Obras como Pantera Negra (2018) já fizeram muito ao mostrar uma parcela da cultura típica do continente. Agora, André também toma por base esses fatos para fundamentar sua narrativa. Inclusive, ao final do livro ele acrescenta notas históricas explicando que as cidades, o tipo de economia e outros pontos citados são reais. Essas informações, caso viessem no começo, teriam dado muito mais peso a obra, mas nada impede que o leitor dê uma conferida nelas primeiro.

Entretanto, diferente da produção da Marvel, O Leão do Oeste mostra o lado sombrio: negros sendo escravizados e vendidos por negros, miséria, condições absurdas e desumanas de trabalho e a violência. Mesmo que algumas dessas coisas tenham ficado no passado, outras ainda acontecem hoje em dia, infelizmente. E isso dá uma motivação genuína para as ações do protagonista.

… quando a minoria faz muito barulho, isenta a maioria de se expressar.” (pag. 101)

Já no que diz respeito ao estilo da narração, primeiramente nós vemos Musa em ação, colocando em prática seu plano de vingança, para só mais à frente entendermos como ele chegou até ali. Isso causa uma confusão proposital que vai sendo esclarecida aos poucos no decorrer da leitura, o que ficou bem construído.

Conforme vamos acompanhando o amaldiçoado, podemos perceber a interação que ele mantém com os animais, a quem ele chama de suas crias. Eles são retratados como seres vivos com vontade e sentimentos próprios e não meras ferramentas domesticadas e controladas. Alguns diálogos entre eles são usados como fonte de humor, porém a maioria expressa a raiva que os animais sentem dos homens devido aos maus tratos e à exploração que sofreram, de forma que o desejo de retaliação não é exclusividade de um único personagem.

Há muitas cenas de lutas brutais em sequência para mostrar quão implacável Kankou Musa é no seu desejo de destruir o Império. Em determinado momento, contudo, isso se torna um pouco cansativo, mas felizmente há algumas pausas para outras cenas. Outra coisa que não encaixou bem foi o vocabulário muito formal (em especial para Candice, algo que ficou inverossímil para uma criança) e as metáforas utilizadas em excesso na narração em primeira pessoa.

No mais, O Leão do Oeste – A Fúria do Amaldiçoado é o primeiro volume de uma trilogia que resgata a cultura e os costumes de povos africanos e os transforma em uma história fantástica sobre redenção e justiça. Sem contar que fornece um gancho que provavelmente dará novo fôlego para a saga nos livros seguintes.

Adicione este livro à sua biblioteca!

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.