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Resenha | O Grande Deus Pã – Arthur Machen

Resenha | O Grande Deus Pã – Arthur Machen

Quando pensamos no gênero do terror na Literatura mundial, alguns dos primeiros nomes que vêm à cabeça são Stephen King e H. P. Lovecraft. Mas antes deles, um autor menos conhecido aqui no Brasil deu início à base do que futuramente seria conhecido como horror cósmico. Estamos falando de Arthur Machen que, em 1894, publicou O Grande Deus Pã, livro que também inspirou o filme O Labirinto do Fauno (2006).

A trama começa com um médico que desenvolve uma espécie de cirurgia cerebral capaz de fazer com que as pessoas enxerguem uma dimensão que naturalmente é invisível aos olhos humanos. Essa habilidade de ver o desconhecido era conhecida pelos povos antigos como “ver o deus Pã”; porém os indivíduos que a experimentavam vislumbravam coisas tão terríveis e incompreensíveis que eram levados à loucura. A partir do procedimento cirúrgico criado pelo dr. Reymond, uma série de acontecimentos misteriosos se desenrola, desafiando a razão e a sanidade.

O medo do desconhecido retratado por Machen em sua obra foi o precursor do horror cósmico pelo qual H. P. Lovecraft se popularizou. Esse subgênero da ficção do terror confronta os seres humanos com forças que vão além de sua compreensão, ressaltando a insignificância da humanidade perante o Universo. Deparar-se com algo que não pode ser explicado por meio de palavras gera tanta angústia e temor que debilita quem quer que passe por essa experiência.

Na mitologia grega, era o deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores. Metade homem e metade bode, ele era temido por aqueles que precisavam atravessar a floresta durante a noite, pois a escuridão do lugar aflorava a imaginação supersticiosa dos viajantes, causando um pavor que era atribuído à divindade. Foi assim que se originou o termo “pânico”. A presença do dr. Reymond recriando em laboratório o processo de ver o grande deus Pã é a forma como o livro tenta oferecer um olhar mais científico aos antigos mitos.

o grande deus pã

O deus Pã

Por se tratar de uma novela curta, a trama é desenvolvida de maneira rápida, sem dar muitos detalhes nem aprofundar alguns acontecimentos, mas no final as peças se encaixam e fazem sentido. Por outro lado, as descrições são superficiais e apresentam um retrato impreciso e subjetivo do que está sendo observado pelos personagens. É algo terrível, abominável, inenarrável, mas o resto fica por conta da imaginação do leitor.

Contudo, precisamos lembrar a época em que a obra foi escrita. Para os padrões do século XIX, as imagens construídas em cima de criaturas pagãs era algo perturbador. E muito mais importante do que mostrar com precisão o que estava sendo visto, era demostrar como aquilo era assustador. E saber que existe algo do tipo, impossível de ser posto em palavras, por si só já é de arrepiar.

Essa atmosfera obscura é o que faz de Arthur Machen e de O Grande Deus Pã referências dentro da ficção de terror. Sua capacidade de moldar o horror psicológico e inspirar a sensação de algo apavorante, mesmo que invisível, influencia até hoje diversos trabalhos do gênero na Literatura e no Cinema.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.