Resenha | O Fio do Bisturi
Editora Harper Collins

Resenha | O Fio do Bisturi

Há pouco tempo estava lendo Sobre a Escrita, o livro de não ficção de Stephen King quando, ao final da obra, ele apresentou uma lista de recomendação com diversos livros. Entre os autores destacados por ele estava uma escritora chamada Tess Gerritsen e seu livro Gravidade. Alguns dias depois, encontrei à venda outro romance de sua autoria e descobri que Tess escreve thrillers médicos. Assim, não resisti à curiosidade e adicionei O Fio do Bisturi à minha coleção.

A trama tem início quando a anestesista Kate Chesne perde uma paciente na mesa de cirurgia e é processada pela família da vítima, acusada de imperícia. O advogado de acusação, David Ransom, tem absoluta certeza da culpa da médica, mesmo depois de ela procurá-lo para tentar se justificar. Somente quando um médico e uma enfermeira ligados à paciente morta têm suas gargantas cortadas é que David começa a cogitar a possibilidade de Kate ser inocente. Assim, eles se unem para tentar descobrir a identidade do assassino e quem será o próximo alvo. Ao mesmo tempo, os dois lutam para resistir à atração crescente entre eles.

Antes do prólogo, o livro apresenta uma lista dos personagens centrais. Em um romance policial isso é de grande ajuda, visto que o número de personagens é grande e às vezes não ligamos o nome à pessoa imediatamente. Além disso, a forma como a autora mistura termos médicos e informações técnicas com ficção torna tudo mais verossímil. Já o suspense sobre o real interesse de determinados personagens é o elemento que nos incentiva a seguir em frente com a leitura.

Porém a relação de amor e ódio entre David e Kate obtém muito destaque. Ele é um advogado bem sucedido que ganha a vida destruindo a reputação de médicos, é divorciado e ainda não superou a morte do filho, motivo pelo qual se fechou em si mesmo. Ela, por outro lado, é uma mulher solteira, sem sorte em relacionamentos e que gosta de mostrar que é independente. Enfim, o típico clichê dos opostos que se atraem. Essa relação do tipo “te quero, mas não posso” vai se estendendo até a conclusão do livro de modo que o suspense parece pano de fundo para o romantismo e não o contrário, como deveria ser.

Por fim, o grande mistério do livro é revelado e mais uma vez reconhecemos outra fórmula bastante usada em folhetins novelescos. A solução faz sentido dentro do contexto, mas não chega a surpreender. Em outras palavras, foi apenas mais um clichê. Entretanto, pode servir de consolo que esse livro foi escrito em 1990, apesar de ter sido publicado no Brasil apenas em 2016. Naquela época, talvez esse desfecho ainda não estivesse tão trivial, quem sabe.

Ainda assim, O Fio do Bisturi apresenta elementos interessantes que conseguem levar o leitor até o fim, mesmo que este não vá se impressionar. Para quem gosta de romances (no sentido romântico mesmo) com um fundo sombrio, esse será um bom livro. Para os demais, razoável. De qualquer modo, ainda há muito do trabalho de Tess Gerritsen para ser conhecido, o que deve justificar a recomendação de Stephen King.

Adicione este livro à sua estante!

Saraiva

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.