Resenha | A Nona Configuração
HarperCollins Brasil

Resenha | A Nona Configuração

Um best-seller abre caminho para outras obras menos conhecidas de um autor. Então é compreensível que as editoras se valham disso para promover alguns títulos, como uma forma de convencer o leitor a dar uma chance para o livro em questão. Esse foi o caso com A Nona Configuração, de William Peter Blatty, autor do grande sucesso O Exorcista.

A trama se passa no Centro Dezoito, uma mansão gótica convertida em manicômio para ex-combatentes que necessitam de atendimento psiquiátrico. Para auxiliar no tratamento dos internos, o psiquiatra da Marinha americana, coronel Kane, é convocado assumindo, assim, a responsabilidade de observar o comportamento dos pacientes e descobrir se tudo não passa de mero fingimento para fugirem de suas obrigações militares. Porém, conviver diariamente com a loucura começa a afetar o psiquiatra física e mentalmente, obrigando-o a rever suas convicções religiosas e a confrontar seus próprios fantasmas do passado.

O objetivo por trás da ficção é instigar uma reflexão sobre diversas questões existenciais como, por exemplo, a existência de Deus e a origem da vida. Esse debate é feito através de conversas entre o coronel Kane e seu pacientes, em particular com Cutshaw, um dos internos mais exaltados. Contudo a tentativa de provocar tais reflexões não é tão bem sucedida. Em meio a diálogos insanos, os assuntos vão mudando em grande velocidade e essas questões filosóficas surgem para logo em seguida serem ignoradas. Apesar de as respostas fornecidas pelo psiquiatra possuírem muito conteúdo sobre o qual o leitor pode refletir, isso fica impossibilitado pela narrativa, a qual não dá tempo para que a informação seja desenvolvida ou até mesmo digerida.

Uma dessas respostas – dada a um questionamento sobre o surgimento da vida – dá o título ao livro. Entretanto o leitor só entende a que o título se refere ao ler a orelha de capa, pois essa informação é tratada com tanta casualidade dentro da narrativa que passa quase despercebida. Na verdade, a nona configuração é um argumento bioquímico utilizado por alguns estudiosos para “provar” a existência de Deus. Mas isso é apenas explicado rapidamente, sem implicar em nada mais significativo no desenrolar da história.

Um ponto positivo é a revelação sobre o passado de Kane, que chega a ser surpreendente. O drama psicológico criado é bem convincente e explica alguns eventos até então não compreendidos. Além disso, este é o fato que mais tem impacto sobre os demais personagens, influenciando em seus destinos.

Todavia nem todos os personagens têm seus destinos bem desenvolvidos ou explicados, o que causa a impressão de que faltou algo. Este é um livro bem pequeno, com apenas 160 páginas. Com mais algumas páginas dedicadas a esses personagens – e principalmente às reflexões que a trama propõe – a experiência da leitura seria bem mais interessante.

Assim, A Nona Configuração é carregada nas costas de outra publicação do autor, esta sim um best-seller. Mas fazendo uma compilação de passagens e frases isoladas, podemos ponderar sobre os seus significados e encontrar um sentido para a leitura da própria obra em si.

 

Talvez todo o mal seja uma frustração, uma separação de onde deveríamos estar […] E talvez a culpa seja só a dor da separação, aquela… aquela solidão em relação a Deus. Somos peixes fora d’água […]; talvez seja por isso que homens ficam loucos.”

 

— Você está convencido de que Deus está morto por causa do mal que há no mundo?

— Correto.

— Então por que você não acha que ele está vivo por causa de toda a bondade que há no mundo?”

Adicione este livro à sua estante!

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.

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