Resenha | Morte Súbita

Resenha | Morte Súbita

As pessoas são seres contraditórios por natureza. Ao mesmo tempo em que podemos ser bons, fazendo algo voltado para um bem maior, podemos ser mesquinhos e egoístas, objetivando somente o benefício próprio. Essa é a dura revelação que o livro Morte Súbita, de J. K. Rowling, nos faz.

Em seu primeiro romance para um público adulto, a autora da série Harry Potter cria uma trama que gira em torno de um personagem que já está morto: Barry Fairbrother morre de maneira repentina, deixando vazia uma cadeira no Conselho Distrital de Pagford e, dali em diante, a vida das pessoas desse pequeno vilarejo irá se transformar drasticamente.

A ausência de Barry atinge os demais personagens de diversas formas e, sob o efeito da sua morte, vamos conhecendo-os aos poucos. A narração em terceira pessoa nos coloca dentro da cabeça de cada um deles. Por trás de cada sorriso, uma tristeza e angústia profundas; por trás de gestos de generosidade, segundas intenções; escondidos sob o disfarce da família exemplar, anos de conformismo e omissão para se manter as aparências.

Assim, durante boa parte do livro, a autora vai nos apresentando as facetas ocultas de cada um dos personagens e revelando seus segredos. Diante de tanta hipocrisia e futilidade, é muito fácil assumir a posição de juiz. É inevitável criticar e condenar certas atitudes e pensamentos. Porém, mais cedo ou mais tarde, cai a ficha e começamos a nos questionar: “eu já não fiz isso também?”, “se fosse comigo, como eu agiria? O que eu pensaria?”.

A partir desse momento, passamos a olhar o cenário de outro modo, de uma forma mais ampla. Colocamo-nos no lugar daquelas pessoas e vemos que Pagford, na verdade, pode ser a nossa cidade, o nosso local de trabalho e até mesmo a nossa casa. Não há heróis, nem antagonistas, somente pessoas normais com problemas mundanos.

Sendo assim, Morte Súbita é um livro que mexe com nossas emoções, enquanto caminha para um desfecho imprevisível. Percebemos que não é tão simples dividir as pessoas em “lado bom” e “lado mal”. Podemos errar tentando fazer o certo, acabando por prejudicar alguém. Mas, também, podemos acertar depois de alguns tombos e tropeços.

Adicione este livro à sua estante!

morte subita

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.