Resenha | Mirta Vento Amarelo – A Linhagem do Dragão

Resenha | Mirta Vento Amarelo – A Linhagem do Dragão

Dentro de alguns subgêneros da Fantasia, é comum observarmos muitos clichês de protagonistas. Geralmente são adolescentes, sozinhos ou em grupo, tendo que enfrentar um cenário opressor em busca de vingança ou poder. Em outros casos, são os escolhidos de uma profecia secular que vêm para salvar o mundo. Mas em Mirta Vento Amarelo – A Linhagem do Dragão, do escritor André Regal, vemos uma criança de 12 anos ser o centro de uma obra profunda e cheia de mistérios.

Porém, Mirta não é uma menina qualquer, mas sim uma pesquisadora renomada em todo reino de Virídea, com um intelecto fora do comum. Enquanto viaja para a capital, ela se depara com Brinaff, um dragão que está muito ferido. Ele conta que soldados usando armaduras brancas estão caçando todos de sua espécie e arrancando-lhes as carapaças. Até mesmo o rei dos dragões, Corff, está correndo perigo. Diante de algo tão intrigante, Mirta sente-se obrigada a investigar. No entanto, ela não sabe que o preço por seu envolvimento será muito alto e colocará todos em perigo.

Crianças superdotadas geralmente são chatas, tentando parecer adultas usando um vocabulário mais culto que o necessário. Entretanto a garotinha em questão, apesar de ser muito sensata para a pouca idade, não demonstra isso de maneira arrogante. Na verdade ela usa do sarcasmo muitas vezes e isso faz com que simpatizemos com ela logo de cara. Essa é uma resposta natural dela, já que todas as pessoas a observam com olhares estranhos e admirados quando ela chega nos locais conversando com seu amigo pássaro, Cerúleo. Como se isso não bastasse, ela surge em uma de suas invenções mais marcantes: uma carruagem motorizada.

Isso causa certo contraste com a sociedade da época que, apesar de não ser tão avançada tecnologicamente, possui elementos fantásticos e mitológicos próprios como divindades, artefatos mágicos e dragões. Estes últimos são os que mais contribuem para o desenvolvimento da trama, a começar pela interação entre o carismático Brinaff e Mirta. Logo no início, seus diálogos ágeis e inteligentes já nos cativam, estimulando a leitura. E para os mais velhos fica difícil não associar – com saudosismo, vale dizer – a figura dos dois com a dupla Bowie e Draco, do filme Coração de Dragão (1996).

Uma coisa curiosa é que, dentro das mais de 500 páginas, a narrativa não possui um único palavrão e, mesmo assim, consegue nos chocar diversas vezes pela brutalidade dos acontecimentos. Esse detalhe só mostra o quão madura é a escrita do autor, tanto que ele admite que a ideia inicial era um livro infantojuvenil que acabou ganhando maior profundidade.

Contudo, não é só a protagonista que chama a atenção. Em certos momentos ela é ofuscada por outros núcleos e personagens que acrescentam muito à história. O primeiro deles é o rei Silkai, que à primeira vista parece ser um alívio cômico, mas em instantes desfaz essa impressão de maneira perturbadora. Em seguida vem o comandante da Ordem Branca, Hillel, que protagoniza uma das batalhas mais emocionantes do livro e surpreende pelo carisma ao lidar com seus subordinados, especialmente com o soldado Nil, o qual esconde um grande segredo. Os caminhos de todos eles convergem para um desfecho grandioso com muitas revelações e lutas.

Por todos esses motivos, Mirta Vento Amarelo pode ser considerado uma referência dentro da Literatura Fantástica Nacional por apresentar todos os ingredientes para uma aventura épica sem cair em fórmulas batidas. E o melhor de tudo: André Regal não nega a possibilidade de que muito mais venha por aí.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.