Resenha | Limbo

Resenha | Limbo

A história da humanidade está repleta de heróis, sejam personagens reais ou fictícios, deuses ou mortais, humanos ou não.  Seus atos heroicos vêm sendo narrados de geração em geração como uma forma de servir de exemplo e manter a fé e a esperança nas horas de desespero. Porém, quando essas figuras caem no esquecimento, juntamente com seus feitos, a Terra mergulha em trevas. E é assim que a encontramos em Limbo, do escritor carioca Thiago d’Evecque.

Como diz o título, a trama se passa no Limbo, um plano espiritual para o qual vão todas as almas após a morte. Além dos humanos, lá também residem seres mitológicos, deuses e demônios esquecidos. Dentre esses espíritos, um em particular desperta de seu sono sem nenhuma lembrança de quem é. A única coisa que sabe é que a humanidade está prestes a entrar em colapso e sua missão é enviar 12 almas heroicas para reencarnarem e orientarem as pessoas antes que seja tarde. Para cada alma enviada, uma parte da memória desse ser volta. Contudo, nem todos os escolhidos vão aceitar retornar sem lutar, obrigando o espírito sem nome a se preparar para grandes batalhas e a se armar com uma espada muito peculiar.

Um dos pontos mais atrativos da obra é a escolha das 12 almas a serem reencarnadas. Elas são personagens de mitologias conhecidas, das quais o autor se utilizou para criar um enredo coeso com referências à cultura pop. Cada personalidade possui uma característica fundamental para auxiliar na reestruturação do planeta: coragem, liderança, diplomacia, compaixão, humildade, etc. E, apesar de serem mitos, fica claro para nós como as pessoas carecem de bons exemplos hoje em dia. Atitudes bem intencionadas desprovidas de vaidade e ganância são raras atualmente, sendo compreensível que muitos questionem o rumo que a humanidade está seguindo.

Outro fato positivo no livro é o tratamento à importância da mulher. Algumas das entidades selecionadas são mulheres que viveram com honra, bravura e ousadia, sem perder sua feminilidade. Mas o que torna a coisa realmente interessante é a forma como esses fatos são descritos. Em nenhum momento é erguida uma bandeira em favor do feminismo, afirmando de maneira categórica a capacidade feminina. Isso não é necessário, pois os feitos e a competência dessas mulheres estão ali, visíveis para quem quiser ver. E tal competência não é tratada como se fosse algo espantoso, mas sim algo comum e esperado, o que de fato define a ideia de igualdade entre os gêneros.

Apesar de o romance nos proporcionar tantas reflexões, o alívio cômico é garantido com um personagem inusitado: Cacá, o deus inominável que se alimenta do medo, mas que agora está aprisionado na espada do espírito sem nome. A evolução da relação entre os dois é repleta de momentos marcantes e diálogos bem humorados. Ambos se alimentam das características um do outro, tanto as boas quanto as ruins, e uma amizade improvável nasce disso. Juntos, eles seguem para completar sua missão enquanto o espírito vai recuperando a memória.

Então, é dessa forma envolvente que Limbo vai se desenvolvendo até chegar a um ponto de virada surpreendente e à sua conclusão. Thiago d’Evecque criou uma jornada de autoconhecimento e reflexão na qual vemos o poder que boas ações e bons exemplos podem ter sobre as pessoas. Além de nos mostrar que não é preciso super poderes para fazer a diferença.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.

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