Resenha | Jantar Secreto

Resenha | Jantar Secreto

Este é um daqueles livros que você devora, com o perdão do trocadilho. Jantar Secreto é o quarto romance do escritor carioca Raphael Montes, autor de O Vilarejo e Dias Perfeitos. Em uma trama que mistura suspense e horror, somos apresentados ao lado mais sombrio que o ser humano pode chegar.

A narração é feita em primeira pessoa, como se fosse uma confissão na qual Dante relata a sua trajetória e a de seus três amigos. Saídos de uma pequena cidade do interior do Paraná, os quatro jovens chegam ao Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Dante se forma em administração, Hugo torna-se um chef de cozinha, Miguel forma-se em medicina e Leitão ganha a vida como hacker enquanto frequenta as aulas do curso de ciência da computação. Porém, o sucesso que os rapazes tanto almejavam não vem e eles se encontram com uma enorme dívida de aluguel. Desesperados por dinheiro, usam o próprio apartamento para oferecer um jantar a desconhecidos. No cardápio, uma refeição exótica e inusitada: carne humana. Daí em diante, eles seguem por um caminho sem volta, mergulhado em ganância, violência e morte.

A princípio, é fácil se identificar com os protagonistas: quatro amigos recém-formados e ambiciosos que querem subir na vida, mas de repente são atingidos pela realidade crítica de nosso país. As exigências e as dificuldades para se conseguir um bom emprego hoje em dia tornam a história mais verossímil para nós. Outro elemento que o autor utiliza muito bem para contextualização são os recursos de que dispomos atualmente, como as facilidades proporcionadas pela internet e pelas diversas redes sociais e aplicativos como o WhatsApp, Uber, Facebook, entre outros. Todos esses fatores fazem com que nos aproximemos dos personagens.

Contudo, a empatia tem um limite, ainda que a narrativa possua um humor negro que torna tudo doentiamente divertido. Inicialmente, eles entram nesse negócio por puro e simples desespero, justificando-se com uma crítica social recorrente que é o consumo da carne de animais que vão para abatedouros sem que isso gere comoção em massa. Mesmo assim é um argumento fraco para o que estão fazendo e, conforme a empreitada vai crescendo, percebemos a mesquinhez e o egoísmo de cada um dos envolvidos.

 

Eu comia carne desde criança, não comia? Nunca me importei com o sofrimento do boi, com a tortura do ganso, nunca perdi um segundo de sono em homenagem aos porcos e aos frangos que devorei ao longo de toda a minha existência.

Apesar das 360 páginas, a leitura flui naturalmente até um final satisfatório e surpreendente. Entretanto, essa surpresa guardada até os últimos instantes deixou algumas questões em aberto. Ainda que não comprometa a qualidade do livro como um todo, somos obrigados a refletir muito para aceitarmos como aquele desfecho é possível. E depois de tal reflexão, vemos que alguns detalhes foram deixados subentendidos.

De qualquer forma, Jantar Secreto consegue prender nossa atenção, nos pegando de surpresa, deixando nauseados e também abismados com essa faceta humana tão macabra. Não é a toa que os direitos do romance foram vendidos para serem adaptados para o cinema. Isso demonstra o potencial de Raphael Montes e o quanto seu futuro como escritor é promissor.

Adicione este livro à sua estante!

Assista ao booktrailer produzido pela Cia das Letras!

 

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro e blogueiro. Apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, ser um profissional da área de exatas, porém manter sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.