Resenha | Gigantes Adormecidos
Suma de Letras

Resenha | Gigantes Adormecidos

É verdade quando dizem que não devemos julgar um livro pela capa. Mas em alguns momentos ela ajuda bastante a despertar nossa curiosidade. Algumas vezes podemos nos decepcionar, é claro, porém em outras podemos fazer uma grande descoberta, como é o caso de Gigantes Adormecidos, do escritor canadense Sylvain Neuvel, publicado no Brasil pela Suma de Letras.

O romance tem início quando Rose Franklin, uma menina de onze anos, está andando de bicicleta e, de repente, é engolida por uma cratera. Ao ser resgatada pelos bombeiros, estes descobrem que ela estava caída sobre a palma de uma gigantesca mão de metal. Dezessete anos depois, outras partes do corpo começam a surgir e Rose, agora ph.D. em física, torna-se a responsável por estudar os estranhos artefatos e montar o que parece ser um robô mais antigo que a própria humanidade. Para realizar tal missão, ela conta com a ajuda de uma equipe de alto nível, selecionada por um homem misterioso disposto a fazer o que for preciso para conseguir o que quer. Diante disso, surge a questão se essa descoberta trará a paz ou se será usada como uma arma de destruição em massa.

A característica que mais chama a atenção na obra é a forma como ela é contada. Não existe um narrador. O intuito é que o livro seja, na verdade, uma compilação dos arquivos redigidos ao longo do projeto de reconstrução do robô. Grande parte dos capítulos é composta apenas por diálogos, onde os personagens centrais são entrevistados – ou interrogados – pelo homem misterioso. Assim, vamos tomando conhecimento dos fatos de acordo com o desenrolar da conversa e do ponto de vista de cada um. Esse recurso foi usado de maneira inteligente pelo autor, de forma que a descrição dos cenários e das pessoas soou natural na maior parte do tempo. Já os capítulos restantes são relatórios em primeira pessoa das missões e experimentos executados por cada integrante da equipe. É válido ressaltar que, apesar desse formato documental, a linguagem utilizada não é técnica.

Os capítulos, ou arquivos, não seguem uma numeração sequencial, então vamos notando a passagem do tempo conforme a pesquisa avança. Algumas vezes essa passagem é um pouco brusca, o que dá a impressão de que a trama está muito acelerada. Outro ponto negativo dessa estrutura em arquivos é que ela torna os personagens superficiais, dificultando a empatia por eles.

O personagem mais carismático é o homem misterioso, interlocutor de todos os diálogos. Apesar do seu profissionalismo exagerado e objetividade, ele não deixa de ser sarcástico em alguns momentos. É na figura desse homem que reside o principal questionamento do livro: até onde vai a disputa por um grande poder? Ficamos boa parte do tempo sem saber quais são suas reais intenções. O que sabemos é que ele é uma das peças centrais em um jogo político e ideológico. Deixando de lado a ficção, esse é o retrado dos bastidores da política mundial e da disputa pela supremacia.

Assim, o romance vai progredindo até a conclusão de parte do projeto, já que este é apenas o primeiro volume de uma série. É de se esperar que muitas reviravoltas ainda aconteçam. Logo, julgar Gigantes Adormecidos pela bela capa é uma ajuda e tanto para descobrir essa mistura de ficção científica com um toque de conspiração política, muito conveniente no mundo globalizado em que vivemos atualmente.

Adicione este livro à sua estante!

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.

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