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Resenha | Fundação (Trilogia da Fundação livro 1)

Resenha | Fundação (Trilogia da Fundação livro 1)

Começo de ano é sempre a melhor época para pôr em prática os projetos de leitura. E para 2020 assumi a responsabilidade de ler uma das obras mais influentes da ficção científica: a Trilogia da Fundação. A obra prima de Isaac Asimov — composta pelos volumes Fundação, Fundação e Império e Segunda Fundação — apresenta uma viagem através da galáxia para ilustrar a ascensão e queda da humanidade e sua posterior tentativa de se reerguer. Com uma trama tão complexa assim, não é de se espantar que os livros tenham ganhado o Prêmio Hugo de 1966.

No primeiro livro, encontramos a humanidade em seu momento mais próspero. Depois de conquistarem toda a Via Láctea, os humanos estabeleceram o Império Galáctico, o qual perdura por mais de 12 mil anos. A longevidade do governo faz com que os habitantes da galáxia acreditem que ele se manterá para sempre. Contudo, um único homem sabe que isso não é verdade: o cientista Hari Seldon. Utilizando uma ciência conhecida como psico-história, ele prevê que o fim desse reinado está próximo e que em seu lugar um período de trevas se estenderá por 30 milênios. Isso é inevitável, mas há uma possibilidade de que esse tempo de barbárie seja reduzido drasticamente para apenas mil anos. E a única forma de garantir isso é registrando todo o conhecimento já adquirido pela humanidade em uma Enciclopédia Galáctica.

A partir daí, vemos o processo da queda e reconstrução da prosperidade humana ser sustentado em três pilares fundamentais: a ciência, a religião e o comércio. A Fundação — grupo responsável pela elaboração da Enciclopédia — se vale dessas três áreas para tentar reunificar a galáxia. Porém, a passagem de tempo vai mostrando que tais áreas não são suficientes para, sozinhas, trazer de volta o progresso. A descrença e a ignorância, tanto de governantes quanto de governados, faz com que cada parcela da população galáctica seja abordada de um jeito diferente. Algumas se deixam convencer mais facilmente por meio de superstições; outras, através de fatos científicos; e ainda há aquelas onde o dinheiro fala mais alto. Sob esse contexto, não é necessário muito esforço para perceber que nossa própria história se desenrola assim. E seguindo um rumo diferente de O Guia do Mochileiro das Galáxias, esta trama não é uma sátira, mas desempenha a mesma função de crítica social.

Outro ponto crucial que nós podemos perceber é que unificação e dominação são quase sinônimos. Assim como vemos todos os dias nações querendo se impor umas sobre as outras, a obra de Asimov nos mostra isso em escala interplanetária, onde um planeta quer prevalecer sobre o outro se valendo de meios econômicos, científicos ou religiosos. Em muitas das vezes, um conflito acaba surgindo dessa situação. Devido a isso, eu fiquei me perguntando, durante a leitura, se a Fundação era a salvadora do universo ou apenas um mal menor para conter o caos generalizado.

Sendo um mal necessário ou não, fica nítida a previsibilidade das ações humanas. A psico-história consegue prever de maneira quase exata o rumo que uma sociedade tomará de acordo com suas atitudes, sendo que algumas destas aparentam ser imutáveis ao longo dos séculos, sejam erros ou acertos.

O livro é dividido em cinco partes que englobam uma faixa de tempo bem grande. Só conseguimos perceber a passagem temporal durante os diálogos que nos situam de maneira discreta na cronologia da narrativa. Entretanto, no início de cada parte, há um trecho da Enciclopédia Galáctica introduzindo os acontecimentos. Isso dá a impressão de que tudo o que estamos lendo já aconteceu e deixa o questionamento sobre o sucesso, ou não, da Fundação.

Para conceber uma obra tão ousada e complexa, Isaac Asimov se inspirou na queda do Império Romano e em algumas doutrinas polêmicas como o Destino Manifesto dos EUA, que atribuía o direito divino para a dominação americana, e a ideologia nazista, a qual defendia o poder centralizado nas mãos de pessoas mais capacitadas. Por esse motivo é tão difícil traçar linhas entre bem e mal de acordo com os personagens aos quais somos apresentados e as situações narradas, de modo que tudo tem uma implicação oculta que terá reflexos no futuro.

Já deu para perceber que minha missão de falar sobre a Trilogia da Fundação não será algo fácil. Além dos três livros clássicos, o autor ainda lançou outros quatro, atendendo ao pedido dos fãs e editores. Assim, Azimov construiu não só uma trama profunda, com muitos significados e interpretações, mas também um universo compartilhado no qual todas as suas obras estão inseridas.

Adicione este livro à sua biblioteca!

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.