Resenha | A Dança da Morte

Resenha | A Dança da Morte

A Torre Negra é o elemento central que une todas as realidades criadas por Stephen King em suas diversas obras. No quarto volume da série, Mago e Vidro, o pistoleiro Roland Deschain e seu ka-tet desembarcam em um mundo pós-apocalíptico onde aparentemente todas as pessoas foram dizimadas por um vírus letal. Porém, só descobrimos os detalhes de como isso aconteceu em A Dança da Morte, um dos livros mais extensos do autor.

A intrincada trama de 1.247 páginas narra como 99% da população mundial é eliminada pela supergripe Capitão Viajante, uma arma biológica criada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos e liberada acidentalmente. Em menos de um mês, um número incontável de pessoas perece, deixando o mundo praticamente deserto. Os sobreviventes veem-se atraídos por forças opostas, onde os “bons” vão buscar abrigo sob a liderança de Mãe Abigail, uma senhora de 108 anos. Já os “maus”, se unem ao sinistro Randall Flagg, o homem escuro – o mesmo homem de preto, arqui-inimigo de Roland em outro universo. A partir daí, acompanhamos a jornada de ambos os grupos até o momento de seus caminhos inevitavelmente se cruzarem.

Esta não é a primeira publicação do romance. Por motivos financeiros, King precisou fazer diversos cortes para diminuir o custo de produção. Só depois de muitos anos, por acreditar que valia a pena e a pedido de seus leitores, ele decidiu publicar o texto integral. Isso permitiu a exploração completa dos acontecimentos e dos personagens sem pressa no desenvolvimento, além de levar em consideração o impacto que tal catástrofe teria nos meios político, socioambiental e cultural. Alguns diálogos e passagens realmente não fariam falta para o contexto geral, mas aumentam a profundidade, já que conhecemos as bases emocional e motivacional de cada um dos envolvidos.

Para facilitar a organização cronológica dos eventos o livro foi dividido em três partes. A primeira aborda todo o processo de contágio da doença, enquanto vamos conhecendo os protagonistas. Após a leitura é impossível não ficar paranoico com qualquer um espirrando ou tossindo ao seu lado. A segunda mostra a trajetória dos sobreviventes pós apocalipse, cada um seguindo seu caminho em direção à Mãe Abigail ou ao tirano Flagg. Nesse momento, o grande destaque é a necessidade dos ajuntamentos se reorganizarem enquanto sociedade. Já a terceira parte mostra o embate entre as forças antagonistas da Mãe e do homem escuro.

É esse confronto que faz girar todas as engrenagens, como em um jogo de xadrez do “bem contra o mal”. O próprio King define a obra como uma “longa história de cristianismo obscuro” porque Deus é constantemente mencionado, assim como diversos textos bíblicos. Isso desperta a fé de alguns e o ceticismo de muitos, mas nenhum dos envolvidos nega que há algo sobrenatural em torno deles, visto que até mesmo o desfecho só pode ser aceito considerando-se esse elemento sem explicação racional.

Dessa forma, A Dança da Morte é um romance completo com doses equilibradas de fantasia, suspense, terror, sociologia e teologia que constitui o multiverso sustentado pela Torre Negra. Mesmo com um tamanho a princípio assustador, esta é uma de suas obras mais aclamadas, pois Stephen King exibe mais uma vez sua genialidade para conceber uma ficção que aborda diversas questões pertinentes à sociedade e a fé das pessoas.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias

Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.