Capa » Resenhas » Resenha | Branco Letal (Detetive Cormoran Strike livro 4)
Resenha | Branco Letal (Detetive Cormoran Strike livro 4)

Resenha | Branco Letal (Detetive Cormoran Strike livro 4)

A leitura das aventuras do detetive Cormoran Strike começou de forma despretensiosa com O Chamado do Cuco. Depois disso, sempre ficou aquela expectativa por um novo volume da série, algo que nunca deixou de ser correspondido à altura. Não é diferente agora com Branco Letal, o quarto livro do personagem criado por Robert Galbraith ou, para os íntimos, J. K. Rowling.

A trama começa quando Billy, um rapaz problemático, vai ao escritório de Strike alegando ter sido testemunha de um assassinado quando ainda era criança. Apesar dos problemas mentais evidentes que o jovem possui e da confusão de seu relato, a experiência do detetive lhe diz que ele está sendo sincero. Mas antes que Cormoran consiga tomar um depoimento formal, Billy foge da agência, assustado. Ao mesmo tempo, o investigador é contratado por um ministro britânico cheio de segredos. Depois que vários pontos em comum entre este trabalho e a alegação de Billy vão surgindo, cabe a Strike e à sua sócia, Robin Ellacott, desvendar esse mistério. Só que para isso eles terão de superar as dificuldades do relacionamento deles.

A própria autora declara que este é um dos livros mais complexos que já escreveu (e também um dos maiores, com mais de 600 páginas). Isso fica nítido quando vemos a quantidade de perguntas sem resposta com as quais os protagonistas se deparam. Entretanto, o ingrediente de sucesso dessa série é a vida pessoal conturbada dos personagens. Robin enfrenta um casamento infeliz, onde o marido faz de tudo para que ela largue o emprego e se afaste de Strike. Por outro lado, o detetive se depara com seu problema de se relacionar com outras pessoas, até mesmo seus familiares. Isso afeta a relação entre os dois de tal maneira que o mistério da história serve como complemento, e não o contrário. Esse fato normalmente não deveria acontecer em um romance policial, mas é o que torna a narrativa tão cativante e carismática.

Mas para que possamos criar uma identificação ainda maior com os dilemas de Robin e Cormoran é preciso ter lido os romances anteriores; se não todos, pelo menos Vocação Para o Mal, pois muitas das coisas que aconteceram neste volume têm reflexo em Branco Letal.

Essa característica de a vida particular das pessoas se destacar no enredo também é marcante em O Chamado do Cuco, primeiro livro da série. Porém, outro elemento em comum é a investigação típica de uma trama policial, com pouca ação, mas compensada com diálogos e interrogatórios intensos onde tanto Strike quanto Robin demonstram toda a sua inteligência e jogo de cintura para lidar com diversas situações.

Cada capítulo começa com uma epígrafe de Rosmersholm, peça teatral escrita pelo norueguês Henrik Ibsen. Essa produção aborda as convenções políticas e sociais adotadas na relação entre o pastor Rosmer e Rebecca West e, durante a leitura de Branco Letal, podemos perceber essas mesmas convenções que de certa forma criticam a elite decadente de Londres e sua vida de aparências. A título de curiosidade, a peça de Ibsen originalmente se chamaria Cavalos Brancos e essa é uma figura recorrente e de grande importância no livro de Galbraith.

O desfecho do romance surpreende não pela identidade dos criminosos, mas sim pela forma como o crime foi executado. Pelo número de informações aparentemente desconexas que foram surgindo no desenrolar da narração, é impressionante o modo como elas se unem e ganham significado, sem deixar nenhuma ponta solta.

É por isso que Robert Galbraith, ou J. K. Rowling, já pode ser considerado um dos maiores autores de romances policiais da Literatura. Branco Letal e todos os outros títulos protagonizados por Cormoran Strike e Robin Ellacott são uma verdadeira mostra de sua inteligência e criatividade para este gênero.

Adicione este livro à sua biblioteca!

Conheça os outros livros da série do detetive Cormoran Strike:

Leia mais sobre as outras obras de J. K. Rowling:

 

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.