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Resenha | Boas Meninas Não Fazem Perguntas

Resenha | Boas Meninas Não Fazem Perguntas

Depois de escrever seu primeiro livro, Todos os Mentirosos, o escritor Lucas Mota anunciou sua nova obra para 2018: Boas Meninas Não Fazem Perguntas, um misto de distopia e ficção científica que entra em financiamento coletivo no Catarse a partir do dia 2 de abril.

Sinopse: após uma descoberta científica questionável, a Metrópole superou seus anos de recessão econômica através da legalização do comércio de mulheres. Cansada de ser tratada como um produto, Marina decide fugir. Para isso, precisará enfrentar a Força, um departamento policial com alta tecnologia especializado na vigilância e aprisionamento feminino. Isso, é claro, se puder se livrar de sua coleira, que emite choques ao ser removida além de denunciar sua localização.

Quem já está familiarizado com o contexto distópico certamente vai associar a trama a uma das mais aclamadas obras do gênero: 1984. O próprio autor fala das influências que o romance de George Orwel tem sobre sua escrita e isso fica evidente ao vermos o ambiente opressor no qual a história se passa. Porém, no livro de Lucas, essa opressão é voltada apenas para as mulheres, que desde pequenas são tidas como meros objetos.

Como tal, elas não poderiam deixar de seguir certos padrões para serem consideradas valiosas. A cor da pele, a forma física, habilidades domésticas, tudo isso contribui para que lhes seja atribuído um preço. E justamente nesses quesitos a protagonista “falha”. Marina não tem um corpo escultural e nem tantos talentos como dona de casa. Por isso, ela sofre preconceitos e julgamentos que infelizmente são comuns hoje em dia para muitas mulheres. Os capítulos retratam isso muito bem, com títulos como “Se você se esforçasse, ficaria linda”, “Acha que algum homem vai te querer assim?” e “Sua determinação é intimidadora”.

Apesar do tom ficcional, a distopia serve exatamente para criticar essas tendências que a nossa sociedade está seguindo atualmente. O que o livro faz é simplesmente extrapolar esse cenário patriarcal tomando como ponto de partida a ciência e a tecnologia. Por esse motivo, dá para afirmar que Boas Meninas caberia perfeitamente como um episódio de Black Mirror, uma série conhecida por exibir um futuro pessimista construído em cima de avanços tecnológicos e científicos.

Aqui vale ressaltar que o desenlace da narrativa intencionalmente abre espaço para que nós, leitores, possamos tirar nossas próprias conclusões. Isso é uma habilidade que Lucas utiliza muito bem desde Todos os Mentirosos. O desfecho nos faz refletir sobre o que aconteceu e quais as implicações daquilo.

Assim, Lucas Mota mais uma vez mostra seu talento na escrita e sua criatividade como ficcionista. Se você gosta de um livro inteligente que te faz pensar e não entrega tudo de bandeja, Boas Meninas Não Fazem Perguntas é o que precisa.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.