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Resenha | Belas Adormecidas – Stephen King e Owen King

Resenha | Belas Adormecidas – Stephen King e Owen King

O que seria do mundo sem as mulheres? Belas Adormecidas — parceria inédita entre Stephen King e seu filho mais novo Owen King — responde a essa pergunta complexa por meio de uma fantasia contemporânea que aborda temas cada vez mais relevantes, ressaltando o quanto a sociedade seria mais frágil sem a presença feminina.

A premissa é bem simples: um fenômeno global conhecido como gripe Aurora faz com que todas as mulheres adormecidas não acordem. Ao pegarem no sono, seus corpos são imediatamente envolvidos por um casulo e, caso essa estranha cobertura seja removida, as mulheres se tornam extremamente violentas antes de voltarem a dormir. Por todo o mundo, os homens se dividem em grupos que querem protegê-las e outros que querem livrar-se delas. Na pequena cidade de Dooling a situação não é diferente, exceto pela presença de Evie Black, uma mulher com dons inexplicáveis que consegue dormir e acordar quando bem entende.

Não é a primeira vez que Stephen King assina uma obra cujo ponto de partida é uma pandemia. Em A Dança da Morte, vemos o mundo que conhecemos ser destruído depois que uma doença mata quase toda a população, passando pela fase inicial do contágio até a reorganização dos sobreviventes. Em Belas Adormecidas, contudo, a transmissão da doença não é o foco pois não existe um meio conhecido pelo qual ela se espalha. Simplesmente todas as mulheres que dormem não conseguem acordar. Descobrir o que originou isso e se há possibilidade de cura é o que movimenta os personagens.

A narrativa se passa em 2017, fato que a torna atual de diversas maneiras. O que comprova isso são as referências a elementos contemporâneos familiares a todos nós. As fake news, tão comuns hoje em dia, têm um papel destruidor ao espalhar mentiras sobre a Aurora. O próprio nome da enfermidade remete à princesa da Disney que adormeceu depois da maldição de uma bruxa. As séries televisivas também não ficam de fora e podemos ver menções a Breaking Bad e Doctor Who, entre outros programas conhecidos. Como se isso não bastasse, ainda estamos passando por uma pandemia de corona vírus no momento.

A ideia geral do livro partiu de Owen King e foi seu pai quem propôs a autoria compartilhada. A partir daí, eles começaram a trabalhar na escrita, cada um complementando a parte do outro e deixando ganchos para que dessem continuidade ao que o outro tinha escrito. O resultado foi um estilo único, onde é possível reconhecer alguns traços de cada autor, mas não dá para saber quem escreveu o que.

Essa característica torna compreensível que não haja nada de concreto que insira Belas Adormecidas no multiverso King, nenhuma referência explícita à Torre Negra ou a outro personagem recorrente nas histórias contadas por Stephen. Isso não impede os leitores de criarem associações, porém elas são superficiais.

Durante a leitura, encontramos núcleos narrativos diferentes que se alternam, cada um apresentando acontecimentos relevantes para a trama. Somos apresentados a variados pontos de vista que causam a impressão de que não existe um vilão. Cada um tem suas motivações e conseguimos compreendê-las mesmo que não concordemos.

Essas visões de mundo distintas são o diferencial que faz com que a mensagem do livro seja transmitida de forma clara. O romance não levanta nenhuma bandeira, nem teoriza sobre os problemas da nossa sociedade. Ele simplesmente mostra na prática coisas que acontecem todos os dias. A ausência das mulheres deixa evidente o quanto os homens são mais destrutivos sem a presença delas, mas nem por isso a agressividade é tratada como algo exclusivamente masculino, mas sim como uma peculiaridade humana.

Por outro lado, as personagens femininas travam lutas diárias para garantir seu espaço no coletivo. Mesmo assim, existem aqueles que são contra e tentam inferiorizá-las, como acontece na ficção científica Boas Meninas Não Fazem Perguntas, de Lucas Mota. Em consequência, vemos inúmeros episódios de abusos, agressões e desigualdade. Stephen e Owen King conseguem entrar na mente de cada personagem e expor sua forma de pensar e agir e, quando vemos atos de preconceito e machismo sendo feitos por pessoas que se acham na razão, finalmente enxergamos a profundidade do problema.

O desenrolar da trama é bem linear, de forma que não temos muitas reviravoltas. Sabemos os objetivos dos personagens e o que eles estão dispostos a fazer para alcançá-lo. Entretanto isso não diminui a qualidade quando os vemos pondo seus planos em ação.

Belas Adormecidas é um livro complexo, tanto na sua estrutura narrativa quanto na tentativa de evidenciar os desafios pelos quais muitas mulheres têm que passar diariamente. Pai e filho demonstram uma compreensão única sobre esse tema e o transformam em uma obra singular dentro da fantasia que, em breve, também ganhará uma adaptação para a TV.

Adicione este livro à sua biblioteca!

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.