Capa » Resenhas » Resenha | A Volta ao Mundo em 80 Dias – Júlio Verne
Resenha | A Volta ao Mundo em 80 Dias – Júlio Verne

Resenha | A Volta ao Mundo em 80 Dias – Júlio Verne

Viajar no século XXI é algo bem mais simples se considerarmos a evolução dos meios de transporte. Um único avião pode nos levar aos lugares mais longínquos em questão de horas. Mas imagine fazer essa viagem quase 150 anos atrás, quando as únicas formas de locomoção para tal eram os trens e os navios a vapor. Isso é o que nos espera em A Volta ao Mundo em 80 Dias, um clássico de Júlio Verne que inspira muitas obras do cinema e da literatura até hoje.

Phileas Fogg é um homem metódico que não desperdiça um minuto do seu tempo com ações ou palavras desnecessárias. Como todo inglês que aprecia fazer apostas, ele não hesita em aceitar o desafio proposto por seus colegas do Reform Club: dar a volta ao mundo em 80 dias. O que está em jogo é nada mais nada menos que a quantia de 20 mil libras. Assim, o Sr. Fogg parte na mesma noite em companhia de seu novo criado, o francês Passepartout, seguindo um cronograma rigoroso. Contudo, eles não sabem que muitos imprevistos os aguardam.

O protagonista dessa história é uma figura misteriosa. Apesar de ser conhecido por todos como um cavalheiro educado, ninguém sabe detalhes sobre sua fonte de renda, sua vida pessoal ou seu passado. A precisão e a calma com que Sr. Fogg executa seus afazeres lhe dão a aparência de um homem frio e indiferente, mas ele também se mostra uma pessoa generosa e de bom coração. Mesmo assim, lhe falta carisma durante boa parte da narrativa.

Isso é compensado por seu criado, Passepartout. Através de seus olhos, os leitores podem absorver todos os detalhes da viagem, o aspecto de cada cidade visitada e as paisagens ao longo do percurso. O que falta de calor humano no patrão, tem de sobra no empregado, que passa por diversos episódios divertidos e sofre visivelmente com os percalços da jornada. Porém sua presença vai além do alívio cômico, sendo de grande importância em diversos momentos.

Uma das características que torna esse livro tão encantador é a variedade de locais por onde os personagens passam, com as peculiaridades de cada região. Em um período onde grande parte da Ásia e da África eram territórios de países europeus, a mistura de costumes entre nativos e colonizadores resulta em uma gama cultural rica e contrastante. Além disso, é curiosa a noção que se tinha sobre viajar ao redor do mundo no século XIX, bastando passar por alguns pontos específicos sob o domínio inglês e pelos Estados Unidos. Fazendo uma comparação com O Bravo de Ulan Bator, obra de Vinícius Cunha que foca em viagens entre países e continentes, porém na atualidade, percebemos como a configuração territorial e cultural sofreu mudanças no decorrer do tempo.

No desenrolar da aventura de Phileas Fogg e Passepartout, os dois ganham a companhia do agente Fix e da Sra. Aouda. Juntos, eles precisam contornar os obstáculos que estão no caminho da empreitada do Sr. Fogg. Na maioria das vezes, as soluções encontradas são inteligentes e ao mesmo tempo divertidas. Nas outras poucas, parece acontecer tudo muito fácil ou de modo muito conveniente para o protagonista. De qualquer forma, a dúvida sobre o sucesso, ou não, da viagem persiste até as últimas páginas e apresenta um desfecho convincente e criativo.

Não é por menos que as obras de Júlio Verne tiveram — e ainda têm — tanta influência em filmes e livros até hoje. A Volta ao Mundo em 80 Dias é um clássico graças a essa atmosfera aventureira em uma época onde as limitações tecnológicas tornavam as coisas um pouco mais complicadas, mas nem por isso impossíveis.

Adicione este livro à sua biblioteca!

Leia este e outros títulos assinando o Kindle Unlimited (primeiro mês gratuito)

Conteúdo relacionado:

Resenha de O Bravo de Ulan Bator

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.