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Resenha | A Nuvem (Scythe – volume 2)

Resenha | A Nuvem (Scythe – volume 2)

No primeiro volume da série Scythe, o escritor Neal Shusrterman nos apresentou o mundo utópico onde a humanidade venceu a morte. Agora, em A Nuvem, chegou a hora de conhecermos os bastidores dessa utopia e vermos que, a cada dia que passa, ela se afasta mais de sua perfeição aparente.

A sequência de O Ceifador nos transporta novamente para a sociedade governada pela inteligência artificial conhecida como Nimbo-Cúmulo. Porém, o seu poder não se aplica aos ceifadores, os humanos responsáveis por dar cabo da vida de outras pessoas e, assim, controlar o crescimento populacional. Graças a essa separação, a nuvem de dados não pode interferir enquanto observa os membros da Ceifa se afastarem dos princípios morais que os regiam no passado. Então o ceifador Lúcifer surge para assumir a responsabilidade de puni-los. Enquanto isso, Citra e Rowan trilham caminhos diferentes para tentar recuperar a instituição que os transformou naquilo que são hoje.

Ao passo que o primeiro livro mostrava o ponto de vista dos ceifadores, A Nuvem – como fica claro no título – traz o ponto de vista da Nimbo-Cúmulo. Por definição, ela já era um ser onipresente, mas agora podemos perceber que a narração gira em torno dela, mostrando sua presença inclusive em lugares onde seus olhos não alcançam. Além disso, entre um capítulo e outro, podemos ler um depoimento da própria entidade, o que nos permite conhecê-la melhor e entender por que toma determinadas decisões. Isso torna evidente a incompetência da humanidade para administrar a si mesma de forma justa e igualitária, o que levanta o questionando se realmente nunca teremos essa habilidade na nossa sociedade.

Sou a protetora e a pacificadora, a autoridade e a companheira. Sou a soma de todo o conhecimento, sabedoria, experiência, triunfo, derrota, esperança e história da humanidade. 

Sei tudo o que é possível saber, e isso está se tornando cada vez mais insuportável.

Porque não sei quase nada. ” (p. 427)

Tirando o fato de enxergarmos a protagonista de outra forma, a trama mantém um ritmo frenético na narrativa. A todo momento somos pegos de surpresa por uma revelação ou um fato novo que diz respeito ao combate interno da Ceifa e à trajetória de Citra e Rowan. Na verdade, chega uma hora que paramos e pensamos: “Será que já não está bom?!”. Entretanto, isso só aumenta nossa vontade de continuarmos lendo para descobrir logo o que vai acontecer.

Entre uma reviravolta e outra está a revelação de quem é o grande antagonista. Esse é um ponto que pode ser considerado negativo pois, apesar de ser aquele vilão pelo qual sentimos ódio, sua introdução na história soa muito forçada. Suas ambições são fundamentais para o desenrolar dos fatos, mas teria sido possível chegar ao mesmo clímax aproveitando-se outro personagem com os mesmos objetivos egoístas.

Independentemente dessa escolha do autor, A Nuvem é um dos poucos livros que conseguem verdadeiramente arrepiar o leitor com seu final, tanto por ser inesperado quanto grandioso. Manter um mundo perfeito é uma tarefa árdua e, diante do desfecho, ficamos sem saber o que esperar para o próximo romance, tornando o futuro da saga Scythe imprevisível.

Adicione este livro à sua biblioteca!

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.