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Resenha | A Menina que Tinha Dons

Resenha | A Menina que Tinha Dons

A temática de zumbis em um mundo pós-apocalíptico é algo que aparentemente não tem como inovar depois de tantos filmes, séries e livros sobre o gênero. Porém, A Menina que Tinha Dons, do romancista e roteirista M. R. Carey, traz uma nova abordagem a esse tipo de trama, fugindo de clichês e apresentando algo realmente surpreendente.

Após um evento que dizimou quase toda a população mundial, um grupo de sobreviventes busca pela cura dentro de uma base militar. A chave para tal cura está em Melanie, uma menina de 10 anos com uma inteligência fora do comum. Todos os dias, a garota e seus colegas são amarrados em cadeiras de rodas e conduzidos até uma sala de aula por soldados assustados. Ela não entende por que eles têm tanto medo dela, mas já está tão acostumada com essa rotina que a encara como algo normal. Tudo o que Melanie quer é aprender mais e mais, ouvindo as histórias de sua querida professora, a srta. Justineau. Contudo, ela está prestes a descobrir mais coisas do que gostaria de maneira brutal.

M. R. Carey é conhecido por seus trabalhos como roteirista em quadrinhos da Marvel e DC como O Quarteto Fantástico, X-Men, Batman, Lúcifer e Hellblazer. Lendo o A Menina que Tinha Dons, podemos perceber como sua familiaridade com as HQs reflete na sua narrativa. Os verbos no tempo presente são algo frequente e dão a ideia de que estamos acompanhando os personagens em tempo real e vendo suas ações como em uma revista ilustrada. A descrição das cenas macabras e violentas também possui um apelo visual muito forte, exigindo estômago forte por parte dos leitores. Essas características, inclusive, acabaram rendendo uma adaptação da obra para o cinema, intitulada Melanie – A Última Esperança (título horrível, mas ok).

A narração em terceira pessoa nos apresenta o ponto de vista de cada personagem, destacando ainda mais a importância de Melanie, pois percebemos o quanto ela é inteligente e observadora. Na sua mentalidade infantil, ela cria diversas associações com as fábulas que ouviu em sala de aula, fazendo várias referências à mitologia, principalmente à figura mítica de Pandora e sua curiosidade que trouxe consequências desastrosas ao abrir uma caixa. Sua percepção das coisas ao redor faz com que ela tire conclusões acertadas a respeito de várias coisas. Isso serve para que nós desvendemos junto com ela o mistério sobre o que aconteceu com a humanidade, visto que algumas informações soltas que a menina capta fornecem peças para formarmos, aos poucos, o cenário pós-apocalíptico em nossas mentes.

Em determinado momento, os acontecimentos reúnem um grupo de personagens peculiares, tão diferentes entre si que a probabilidade de tudo dar errado é muito grande. Temos o sargento Parks e seu subordinado, Gallagher; a cientista Caroline Caldwell e sua obsessão por Melanie; e a professora Justineau e sua determinação. A interação deles é marcada por altos e baixos e quase sempre um deles faz algo que nos deixa com raiva, seja pela burrice do ato ou então pela sordidez.

O que faz a história se destacar dentre as obras terror e ficção científica com zumbis são as escolhas que o autor faz, dando rumos imprevisíveis para a jornada desses personagens. Quando achamos que já vimos aquilo antes e deduzimos o que vai acontecer, somos pegos de surpresa com uma mudança nos planos que muda toda a situação. O mesmo pode ser dito sobre o desfecho, que é chocante e impressionante.

Com A Menina que Tinha Dons, M. R. Carey dá um novo fôlego às tramas de zumbis ao fugir do óbvio e dar um novo olhar para esse cenário pós fim do mundo. A influência dos quadrinhos também ajuda bastante na ambientação e descrição, tornando a experiência da leitura muito mais atraente e cativante.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.