Resenha | A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Resenha | A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Até hoje muitos clássicos da Literatura Nacional são indigestos, principalmente durante nossa estadia no colégio, onde somos obrigados a lê-los ainda jovens e imaturos. Isso acontece devido à linguagem rebuscada e à complexidade dos temas tratados nas obras, o que gera falta de interesse dos alunos. Foi com o intuito de mudar isso que o escritor e professor Enéias Tavares criou A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison, primeiro volume da série Brasiliana Steampunk, que traz uma releitura de diversos personagens da literatura brasileira em um ambiente retrofuturista.

Primeiro de tudo, é preciso esclarecer o que é steampunk. Nada mais é do que um movimento literário que extrapola a tecnologia a vapor enquanto a elétrica fica em segundo plano. Assim, carruagens turbinadas, robôs, zepelins, equipamentos estranhos e muitas engrenagens são coisas comuns no século XIX ou no início do XX. Bom exemplos desse gênero são os livros de Júlio Verne e o filme As Loucas Aventuras de James West, estrelado por Will Smith.

É em um cenário assim que chegamos em 1911, na cidade de Porto Alegre do Amantes, onde o jornalista carioca Isaías Caminha desembarca para cobrir uma série de terríveis crimes que culminaram com a prisão do assassino Antoine Louison. Porém, na véspera de sua execução, o criminoso consegue fugir do Asilo São Pedro, um manicômio liderado pelo alienista Simão Bacamarte. Enquanto Isaías investiga a fuga de Louison, seu caminho se cruza com o Parthenon Místico, uma sociedade secreta composta pelo cientista Dr. Benignus, o imortal Solfieri de Azevedo, os aventureiros Bento Alves e Sergio Pompeu e a indígena Vitória Acauã. Além deles, as donas do Palacete dos PrazeresRita Baiana, Pombinha e Léonie – se veem envolvidas nesse enlace. Assim, através dos relatos e cartas de cada um deles, vamos montando o quebra-cabeça para solucionar esse mistério.

A grande sacada da obra está em reunir esses personagens já conhecidos de outros autores nacionais e juntá-los em uma espécie de Liga Extraordinária, cada um com sua especialidade e peculiaridade. Isaías veio de Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), de Lima Barreto; Simão Bacamarte foi retirado de O Alienista (1882), de Machado de Assis; Doutor Benignus veio do livro homônimo escrito por Augusto Emílio Zaluar em 1875; Solfiere saiu de Noite na Taverna (1855), de Álvares de Azavedo; Bento e Sergio vieram de O Ateneu (1888), escrito por Raul Pompeia; Vitória teve sua origem em Contos Amazônicos (1893), contada por Inglês de Souza; já as três damas Rita Baiana, Pombinha e Léoni surgiram de O Cortiço (1890), de Aluízio de Azevedo.

O autor pegou cada um deles e deu uma continuidade às suas histórias dentro de um contexto mais fantástico e místico. Porém ele não se esqueceu do passado de cada um, fazendo diversas referências sutis às suas obras de origem. Tais referências não prejudicam o entendimento da narrativa e, além disso, cumprem o papel principal de despertar a curiosidade do leitor a respeito dessas figuras e estimular a procura por esses autores tão importantes. Eu, que só havia lido O Alienista e nunca consegui terminar O Ateneu, estou muito mais motivado a ler os clássicos depois desta leitura.

Este livro concilia dois temas contundentes: a releitura de trabalhos de renome e o impacto das primeiras leituras sobre os leitores. Esses dois temas já foram discutidos aqui no Leituraverso, principalmente no podcast sobre releituras e também no que fala sobre leituras marcantes, inclusive mencionando as obrigatórias para vestibular, que às vezes se mostram bem difíceis.

Enéias Tavares fez um trabalho excepcional ao homenagear e gerar interesse para a literatura nacional clássica ao mesmo tempo em que abre espaço para um gênero novo no nosso meio que é a fantasia. Sendo assim, A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison é uma porta de entrada muito mais acessível para narrativas as mais complexas.

Adicione este livro à sua biblioteca!

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.