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Resenha | A Face dos Deuses (As Crônicas da Aurora: Livro 1)

Resenha | A Face dos Deuses (As Crônicas da Aurora: Livro 1)

Não existe justiça no mundo dos homens.

Esta é a fala que melhor resume A Face dos Deuses, o volume 1 d’As Crônicas da Aurora, de Gleyzer Wendrew. Em seu primeiro livro, o escritor brasiliense nos mostra o lado sombrio da Fantasia; um mundo no qual compaixão é algo raro e prestes a ser extinto.

Somos apresentados ao governante de Maäen, Heros Kinnhäert, um homem atormentado pelas lembranças da Longa Guerra, o confronto entre as três nações de Dünya, que durou 10 anos. Diante de uma aliança entre dois países rivais, o rei vê-se obrigado a tomar medidas drásticas para proteger seu povo de um novo conflito. Enquanto isso, no Norte, o príncipe de Vatra retorna do exílio para reerguer o nome de sua família e se vingar de todos os seus antigos inimigos. Em meio a disputas políticas e religiosas, os dois vão seguir, cada qual ao seu modo, o caminho para a sobrevivência.

A primeira coisa que chama a atenção são os nomes das pessoas, dos lugares e os títulos de nobreza. Gleyzer pesquisou e estudou a criação de línguas para conceber um idioma próprio para a história, com muitos tremas, consoantes duplas e apóstrofos. Para auxiliar, o livro contém um glossário ao final, explicando o significado e a pronúncia de cada termo. Inicialmente – como aconteceu comigo, confesso –, isso pode causar certa preocupação em ler cada vocábulo de forma correta, mas o que realmente importa é compreender seu sentido dentro do contexto. A própria narrativa nos permite essa dedução intuitiva, de forma semelhante ao que acontece no aclamado Laranja Mecânica, de Anthony Burguess e também na famosa distopia 1984, na qual George Orwel criou a novilíngua. Então, depois que focamos em entender e deixamos o som das palavras de lado, a leitura flui mais tranquilamente.

Ultrapassada a “barreira idiomática”, podemos apreciar a obra como um todo. Ela funciona como um prólogo que nos introduz no mundo criado pelo autor. Descobrimos as brutalidades cometidas na Longa Guerra, suas consequências e o passado obscuro e violento dos personagens, deixando claras suas motivações. Isso nos dá uma ideia do que esperar em A Dança dos Mortos, o volume 2 da saga.

Outra característica que torna a leitura atraente é a não-linearidade da narração. Em um capítulo vemos determinada situação, entretanto os fatos que resultaram nela são apresentados posteriormente. Esse recurso, que sabiamente foi usado com moderação, cria um quebra-cabeça que vamos montando aos poucos até a conclusão.

Como o título sugere, a religião tem um papel fundamental na trama. Existem os deuses que representam as emoções humanas e os que explicam as forças da natureza, totalizando sete divindades. Eles são adorados de acordo com as peculiaridades de cada região. Além disso, dependendo do sentimento do personagem em dado momento, diz-se que ele vestiu a face de determinada entidade. Quem sente medo, veste a face de Vaäth; quem nutre esperança, usa a face de Aehla e assim por diante.

A obra de Gleyzer Wendrew nos conduz por terras desconhecidas e hostis em uma fantasia sombria onde o mais assustador não são os monstros e as figuras sobrenaturais, mas sim os homens. Depois de conhecermos todos os aspectos divinos, as nações em conflito e os protagonistas mostrados em A Face dos Deuses, não há retorno. Bem-vindos às Crônicas da Aurora.

Adicione este livro à sua biblioteca!

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ou saiba mais sobre ele lendo a resenha: A Dança dos Mortos (As Crônicas da Aurora: livro 2)

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.