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Resenha | A Estrada da Noite – Joe Hill

Resenha | A Estrada da Noite – Joe Hill

Alguns talentos são transmitidos de pai para filho e no caso de Joe Hill a aptidão para escrever tramas de terror veio de ninguém menos que Stephen King. Isso fica claro logo em seu romance de estreia, A Estrada da Noite, uma boa e velha história de fantasmas regada a muito rock and roll.

Judas Coyne é um astro do rock com gostos bastante peculiares. Sua fascinação pelo bizarro já fez com que ele adquirisse muitos itens com significados macabros. Por isso, ele não hesita quando encontra a oferta de um fantasma sendo leiloado na internet. Contudo, o que deveria ser apenas mais uma excentricidade acaba se tornando algo perturbador quando o paletó de um homem morto chega na sua casa em uma caixa preta em formato de coração. O espírito do antigo dono da vestimenta começa a aparecer pelos cômodos, plantando pensamentos suicidas na cabeça de Judas. Para descobrir como se livrar da assombração, ele e sua namorada gótica partem em busca da pessoa que lhes vendeu o paletó, porém o real significado disso tudo é muito mais profundo.

A sinopse na contracapa diz mais coisas a respeito da identidade da figura fantasmagórica, mas descobri-las ao longo do livro torna a leitura muito mais proveitosa. Outra informação é a de que os direitos para uma adaptação para o cinema foram adquiridos pela Warner. Contudo, isso não aconteceu porque o projeto foi cancelado. É realmente uma pena, pois A Estrada da Noite tem um apelo visual e sonoro muito forte. A descrição dos cenários e dos personagens é um elemento que cria uma imagem clara na nossa mente, sem contar que o protagonista é um roqueiro que faz várias referências musicais que dariam uma ótima trilha sonora.

E se tratando de terror, descrições bem-feitas são essenciais para criar uma atmosfera onde o leitor se sinta envolvido a ponto de se assustar. Não é a todo momento que isso acontece na narrativa, entretanto algumas passagens se destacam por trazer um clima de arrepiar, seja pela iminência de algo que resultará na morte de alguém ou então pela violência do que já está acontecendo.

A construção dos personagens também contribui para o desenrolar da trama. Muito antes de ser assombrado por um fantasma, o passado de Judas já o atormentava: o pai violento, os companheiros de banda que abandonou e as mulheres que usou e descartou. Seus relacionamentos eram tão superficiais que ele não chamava as namoradas pelo nome próprio, mas sim pelo nome do estado de onde elas vinham. Geórgia seria mais uma dessas companheiras temporárias, mas passar pela experiência de serem perseguidos por uma entidade sobrenatural faz com que a relação dos dois se diferencie das demais e dá à garota uma importância significativa.

Sendo filho de quem é, fica difícil não fazer comparações entre a escrita de Joe Hill e seu pai. Porém, a narrativa de Hill é menos prolixa e mais leve que a de King, por mais que ele não tenha pudor em mostrar cenas violentas ou perturbadoras. A diferença principal está na forma como o desenvolvimento se dá até chegarmos à conclusão do livro, sendo que Joe é mais linear e objetivo.

A Estrada da Noite está aí para mostrar que talento vem de berço, mas isso não obriga que todos da família sigam exatamente o mesmo caminho. Joe Hill está trilhando seus próprios passos dentro do terror e criando um estilo pessoal mais descontraído e direto.

Adicione este livro à sua biblioteca!

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.