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Resenha | A Casa Negra

Resenha | A Casa Negra

Depois de compartilharem a autoria da fantasia O Talismã, Stephen King e Peter Straub se reúnem novamente para dar continuidade a essa aventura com A Casa Negra. Com uma pegada muito mais voltada para o terror, a obra também constitui uma peça fundamental para a saga da Torre Negra.

Vinte anos se passaram desde que Jack Sawyer atravessou os Estados Unidos e o mundo paralelo conhecido como os Territórios para salvar a vida de sua mãe. Suas lembranças dessa jornada se perderam com o tempo e agora ele é um detetive aposentado aos 32 anos. Contudo, o rapaz se vê obrigado a voltar à ativa para ajudar um amigo policial a solucionar o misterioso caso do Pescador, um assassino macabro de crianças. Sua participação ressuscita velhos fantasmas do passado e resgata memórias há muito esquecidas. Assim, Jack mergulha de cabeça na investigação sem saber que seus passos o levam em direção à sinistra Casa Negra.

O começo do livro é um pouco arrastado graças ao excesso de descrições sobre a cidade na qual a história se passa. Além disso, a narração causa certa estranheza no início, pois aparentemente é feita por narradores-personagens, porém esses narradores possuem uma natureza sobrenatural e indefinida que faz com que eles sejam oniscientes. Felizmente, isso deixa de ser um problema logo em seguida, porque a narrativa se torna mais ágil e menos descritiva enquanto os acontecimentos vão se desenrolando. Inclusive várias referências a outras obras são feitas, como filmes, livros e músicas.

A maior referência de todas, entretanto, é à Torre Negra. Isso não é uma novidade, tendo em vista que a Torre é o eixo central do multiverso de Stephen King. Mas A Casa Negra não se limita apenas a fazer uma menção a isso. A trama é uma peça-chave para o entendimento da saga de Roland Deschain, especialmente do último volume, já que apresenta devidamente alguns elementos de grande importância que não foram muito bem explorados nos sete livros da série.

A construção de Jack Sawyer e de outros personagens também chama a atenção. O protagonista se destaca pelo seu carisma: Jack consegue ganhar a confiança da maioria das pessoas de forma fácil e isso faz dele um excelente investigador. Porém, ao mesmo tempo em que o ex-detetive passa essa aura de credibilidade, no seu íntimo ele é um homem atormentado por visões e pensamentos sombrios gerados pelos traumas de infância. Outro personagem que se destaca é Henry Leyden, um radialista cego tão carismático quanto Jack e que tem inteligência e perspicácia fora do comum; mas nem por isso ele está isento de lidar com seus próprios monstros.

O que você ama você precisa amar mais ainda, porque um dia não haverá mais isso.”

Esse detalhe é que torna o romance algo a mais do que um simples terror visceral. As cenas de morte têm um impacto visual enorme, contudo o terror psicológico prevalece. Os autores detêm uma capacidade de explorar o medo de seus personagens e narrar as provações que cada um enfrenta de maneira angustiante. Sem contar que o Pescador é particularmente perturbador com sua obsessão doentia por matar crianças e profanar seus corpos, causando repulsa e ódio na mesma medida.

A Casa Negra é muito mais do que uma simples continuação. Ela é a conclusão de um arco importante dentro de algo maior. Ainda que a obra seja de autoria compartilhada, ela sustenta uma parte do multiverso criado por Stephen King e abre outras portas para universos que podem ou não ser explorados futuramente.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.