Resenha | A Cabana

Resenha | A Cabana

Falar sobre A Cabana pode ser um desafio. Apesar de ter emocionado milhões de pessoas, o livro de estreia de William P. Young também gerou certa polêmica por retratar o Deus que conhecemos (ou julgamos conhecer) de maneira diferente. Esta obra é o exemplo perfeito da eficácia da divulgação boca a boca, onde uma pessoa recomenda à outra, que recomenda à outra e assim por diante até se tornar um grande sucesso. Tanto que sua adaptação chega aos cinemas em abril de 2017.

A história conta como Mackenzie Allen Phillips sofre uma perda irreparável: durante uma viagem, sua filha mais nova, Missy, é raptada. Depois de uma mobilização de amigos e autoridades, descobre-se evidências de que a menina teria sido assassinada em uma velha cabana. Depois de quatro anos passando por uma terrível depressão, Mack recebe um bilhete assinado por Deus chamando-o para passar um fim de semana na mesma cabana onde tudo aconteceu. Sem nada a perder, o homem vai ao local e lá encontra seu anfitrião – Papai, como Ele gosta de ser chamado –, com quem terá conversas, discussões e questionamentos que mudarão completamente sua forma (e a nossa) de enxergar a vida.

Antes de mais nada, muitos já devem ter se feito a mesma pergunta: se Deus é benevolente e onipresente, porque há tanta maldade e violência impunes no mundo? Essa é uma questão complexa a qual muitos indivíduos e instituições religiosas vêm tentando responder. A dificuldade de se encontrar uma resposta única e satisfatória é a causa de muitas discordâncias entre as diversas religiões existentes. Além disso, esse questionamento serve como argumento na defesa da inexistência de Deus.

Porém, o autor utiliza sua formação acadêmica em Religião para responder a essa e a muitas outras questões. O personagem Mack representa todas as pessoas e faz as perguntas que nós poderíamos fazer caso encontrássemos o Senhor cara a cara. Nem todas as respostas são simples de entender, mas conforme vamos lendo, sentimos que entendemos a essência, mesmo que não concordemos de todo com algumas coisas.

A polêmica do livro está na desconstrução de alguns conceitos e estereótipos que temos a respeito de Deus, desde a sua imagem até seu relacionamento com a humanidade. Uma das críticas mais contundentes diz respeito às religiões, as quais deturpam algumas ideias visando benefício próprio. Outros pontos como o perdão e justiça divina também podem causar certos debates. Entretanto, concordar ou não com o que é dito varia de leitor para leitor. Após a leitura, eu pessoalmente fiquei com uma visão muito mais otimista no que diz respeito ao meu relacionamento com a fé.

Vale ressaltar que a função do livro não é pregar a Palavra de Deus e te convencer a crer Nele. A trama já subentende que o leitor crê mas, ainda assim, tem muitas dúvidas. Contudo, mesmo quem não acredita pode nutrir questionamentos semelhantes e o livro se dispõe a oferecer as respostas. Se ao final da leitura os dois grupos vão terminar convencidos ou não é outra história. Na pior das hipóteses será uma fantasia muito bem escrita e idealizada.

De uma forma ou de outra, A Cabana é uma ficção que nos proporciona reflexões e exercícios de autoconhecimento que muitos livros de autoajuda são incapazes de fornecer, então só por isso já vale a leitura. Isso explica o grande sucesso que foi a obra e porque ela mudou a forma de muitas pessoas pensarem e enxergarem Deus.

A escuridão esconde o verdadeiro tamanho dos medos, das mentiras e dos arrependimentos. A verdade é que eles são mais sombra do que realidade, por isso parecem maiores no escuro. Quando a luz brilha nos lugares que vivem no seu interior, você começa a ver o que são realmente.

Adicione este livro à sua biblioteca!

Confira também a crítica do filme!

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.

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