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Resenha | O Pequeno Príncipe

Resenha | O Pequeno Príncipe

Essa vai ser uma resenha diferente das que costumo escrever aqui para o Leituraverso. Isso porque só um texto em primeira pessoa é capaz de traduzir a experiência de leitura que tive com O Pequeno Príncipe, que para mim foi tardia, confesso, mas que valeu muito a pena.

O livro, que completou 75 anos em 2018, é escrito pelo piloto francês Antoine de Saint-Exupéry e ele próprio faz o papel de personagem, narrador e ilustrador. Após uma pane no motor de seu avião, ele cai no meio do deserto e lá encontra um menino surgido não se sabe de onde. Em poucos minutos de conversa, ele percebe como o garoto é peculiar no seu jeito de interpretar as informações. Depois de alguns dias, o homem vai descobrindo a origem do pequeno príncipe e o que ele busca naquele lugar inóspito.

Para começar esse é um livro dedicado às crianças, mas que contém uma importante mensagem para nós adultos: muitas das coisas para as quais damos importância são irrelevantes diante de outras muito mais simples que nos tocam de maneira íntima, ou seja, que nos cativam. Porém é muito difícil perceber isso, principalmente na vida cheia de obrigações depois que nos tornamos gente grande. É como se o tempo nos tirasse a habilidade de ver além das aparências e dos números.

O essencial é invisível aos olhos.”

A beleza de O Pequeno Príncipe está justamente nessa transparência e inocência que ele transmite. A forma pura como o menino enxerga as circunstâncias é carregada de uma sabedoria que muitas pessoas vividas não possuem. E mesmo sendo algo singelo, não deixa de ser profundo, já que nos faz refletir.

Ao logo de sua jornada, o garoto conhece indivíduos que vivem isolados em seus mundinhos (literalmente) e não conseguem enxergar nada além de si mesmos. Eles se fecham na própria soberba, na própria vaidade e em diferentes tipos de vícios e ganâncias. Eu mesmo já me deparei com pessoas assim e tenho certeza que muitos de vocês também.

– A gente se sente um pouco sozinho no deserto…

– A gente se sente sozinho entre os homens também…” 

Mas além das outras pessoas, esse livro fez com que eu olhasse para mim e me questionasse em que mundinho eu me fechei. Houve uma época não muito distante que eu conseguia escrever poemas retratando o que eu sentia em determinado momento e hoje parece que essa capacidade adormeceu. E o príncipe faz parecer tão simples pôr em palavras os sentimentos e as coisas essenciais da vida, que nos desperta essa vontade de conseguir fazer igual.

Um ponto que quero destacar, contudo, é que apesar de o protagonista ser uma criança, Saint-Exupéry era um adulto quando escreveu o livro. Mas ainda assim um adulto capaz de entender a mente de uma criança e ter uma perspectiva diferenciada sobre o Universo. Sua história de vida e sua criação contribuíram muito para isso, mas essa sensibilidade é um dom natural que poucas pessoas têm.

Preciso suportar duas ou três lagartas se quiser conhecer as borboletas.”

É por isso que, apesar de ter demorado para ler O Pequeno Príncipe, sinto que a obra me foi recomendada no momento certo. Depois de ter o olhar para as coisas endurecido com o tempo, é bom ter algo que me relembre como é enxergar o mundo sob os olhos inocentes de um menino.

Adicione este livro à sua biblioteca!

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.