Resenha | O Labirinto dos Espíritos

Resenha | O Labirinto dos Espíritos

Carlos Ruiz Zafón tem o dom de deixar os leitores ávidos por suas obras graças ao seu estilo único de escrever. Portanto, já dá para entender por que seu novo livro foi um dos mais aguardados de 2017. Pela mesma razão, resenhar O Labirinto dos Espíritos é um desafio – assim como foi com Marina – que requer atenção para não entregar as grandes revelações que estão por vir. Com este romance, finalmente chegamos à conclusão da saga O Cemitério dos Livros Esquecidos, iniciada em 2001 com o best-seller A Sombra do Vento.

Os fatos se passam nos anos 1950 e nos apresentam um novo personagem: Alicia Gris, uma mulher sombria e solitária que trabalha como investigadora. Quando a polícia comum não consegue solucionar o desaparecimento do ministro Mauricio Valls, os talentos dela são secretamente requisitados para localizá-lo. Enquanto isso, Daniel Sempere continua trabalhando na livraria da família. Contudo, escondido de todos, ele alimenta sua sede de vingança contra Valls, a quem atribui a culpa pela morte de sua mãe, Isabella. Os acontecimentos vão se sucedendo até o momento em que os destinos de Alicia e Daniel se cruzam, trazendo à tona segredos obscuros do passado e pessoas dispostas a tudo para mantê-los enterrados.

Dessa vez, o protagonismo fica por conta de Alicia, cuja investigação nos conduz por boa parte da narrativa. Ela é uma figura complexa, dividida entre a vida que poderia ter tido e a que tem de fato, o que a faz duvidar quem é realmente. Com isso, a moça carrega aquela melancolia característica dos bons personagens da Literatura, regada a álcool e remédios para suportar a dor de uma antiga ferida da guerra. Entretanto, Daniel não é deixado em segundo plano. O garoto que todos acreditam ser ingênuo e inofensivo aos poucos está se tornando um homem amargurado e corroído pela raiva. Isso não o difere muito de Alicia, já que os objetivos que ambos compartilham podem levá-los por um caminho sem retorno.

Na verdade, por mais que seja uma série, os quatro livros podem ser lidos fora de ordem. O que importa é que cada um constitui uma peça no quebra-cabeça da história da família Sempere. O destaque para O Labirinto dos Espíritos se deve ao seu papel de peça central, conectando todas as outras e dando significado ao quadro geral. Este volume é importante para dar sentido à trama de O Jogo do Anjo que, dentre os quatro, é o mais subjetivo graças a visão peculiar do narrador, David Martín. Também aprofunda o que foi introduzido em O Prisioneiro do Céu – protagonizado pelo carismático Fermín Romero de Torres – e retoma lugares e personagens apresentados em A Sombra do Vento.

Mesmo sob pontos de vista e épocas diferentes, todos os exemplares têm em comum o mesmo elemento: Barcelona. Através da narração vívida de Zafón, a cidade se torna um personagem onipresente de personalidade obscura e ar misterioso. Cada ambiente, cada pessoa, com seus gestos e falas são pintados de forma nítida em nossa imaginação e nos sentimos imersos nas ruas escuras de um lugar perdido nas brumas do passado. Entretanto, o cenário mais marcante é aquele que dá nome à série, O Cemitério dos Livros Esquecidos. Todos os seus frequentadores prestam uma homenagem à Literatura, coisa que o autor faz questão de deixar clara. Em diversos momentos, podemos até perceber que existem trechos autobiográficos relatando o envolvimento do romancista com as Letras.

Eu estava a cada dia mais convencido de que a boa literatura tinha pouco ou nada a ver com as quimeras banais como ‘a inspiração’ ou ‘ter algo que contar’ e muito com a engenharia da linguagem, com a arquitetura da narração, com a tinta das texturas, os timbres e as cores da construção, com a fotografia das imagens e com a música que uma orquestra de palavras podia criar.” – p. 644/45.

É dessa forma que somos conduzidos ao final dessa saga emocionante em todos os sentidos da palavra. O Labirinto dos Espíritos veio para entrelaçar ainda mais profundamente em nossa memória lugares e personagens inesquecíveis. Sob as últimas pinceladas de Zafón, enfim vislumbramos o destino da família Sempere e do Cemitério dos Livros Esquecidos e todas as marcas que eles deixaram.

Uma história não tem princípio nem fim, só portas de entrada. Uma história é um labirinto infinito de palavras, imagens e espíritos em conluio para nos revelar a verdade invisível sobre nós mesmos. Uma história é, em definitivo, uma conversa entre quem narra e quem escuta, e um narrador só pode contar até onde vai a sua perícia, e um leitor só pode ler até onde está escrito em sua alma.” – p. 632.

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias

Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.