Ah, Vida Real – parte 2

Ah, Vida Real – parte 2

  1. Troca de personalidades

– Segurando-a perto de mim, percebi que ela fraquejava.

Ela virou a cabeça para o lado tentando desvencilhar-se. Mas ainda assim não forçava para se libertar.

Pare com isso”, ela pediu em um sussurro risonho.

Agora, era ela quem tinha um sorriso tímido na face.

É engraçado como a convivência com outras pessoas lhe proporciona uma troca de características da personalidade.

Ela era desinibida.

E eu retraído.

E de repente tudo se inverte por alguns minutos.

Sorte a minha. Se ela fosse uma psicopata…

Bem, desculpe por isso. Com certeza estraguei o romantismo. Mas é melhor assim.

Eu já estava muito perto dela. A ponto de sentir sua respiração acelerada.

Vi que ela hesitava.

Um último “olhos nos olhos”. E com firmeza:

“Se isso lhe incomoda tanto, eu lhe prometo uma coisa”.

Pausa breve.

Depois desse beijo, você não terá que me ver de novo. Nunca mais. É uma promessa”.

Já não havia nada a ser dito.

Somente a ser feito.

  1. A dança dos lábios

Foi bem devagar.

Em câmera lenta.

Nossos lábios se tocaram num cumprimento inicial, se conhecendo mutuamente.

Depois, começaram a dançar em uma cadência ritmada.

A música, entretanto, estava apenas nas nossas mentes.

Não faço a menor ideia da música que ela ouvia.

Mas eu me lembro da minha.

Era “Somewhere only we know” do Keane, você conhece? Não? Deveria ouvir. É boa. É sim…

Não sei durante quanto tempo dançamos.

Enfim acabou.

  1. Pagando a promessa

Nossas bocas se afastaram, mas detive-a em meus braços por alguns segundos.

A beleza mediana do início tornara-se incrível. Admirei-a.

Até que a libertei. Lentamente.

Silêncio.

Hora de cumprir a promessa.

Lancei-lhe o sorriso derradeiro.

Virei-me.

E parti.

Nada de adeus.

Nenhuma palavra.

  1. A avaliação

– Se eu estivesse lhe contando isso há três dias atrás, eu diria: “e desde então eu nunca mais a vi”. Contudo, isso seria perfeito demais.

– Você se encontrou com ela de novo? – perguntou minha professorinha.

Limitei-me a confirmar com um aceno de cabeça.

Eu via minhas próprias mãos. Brincava com meus dedos.

– Exatamente – reiterei.

– Mas por que isso lhe deixa triste?

Não soube se conseguiria explicar.

– Bem, – tentei – é que…

Decidi outra abordagem:

– Antes disso, – falei rápido – quero ouvir sua opinião sobre o que acabei de contar.

Ela inclinou a cabeça para um lado, pensando no que dizer.

– Eu achei que você foi corajoso. Ousado. Abusado. Mas além de tudo, romântico.

Era justamente a palavra que eu temia ouvir, já sabendo que ela surgiria.

– Esse é o problema.

  1. O que há de errado com a palavra

– Explica isso direito – objetiva como sempre.

Não é romântico. Esse é o problema. Foi tudo uma farsa!

Fiz uma pausa e olhei para o rosto bonito ao meu lado. Não consegui me dirigir aos olhos, então falei à boca.

– Eu fiz tudo isso de caso pensado, não entende? Eu sabia exatamente como agir, como falar, quando falar.

– E daí, meu amor? – Disse em um tom impaciente. Meu amor. Adorava quando ela falava assim, mesmo consciente de que não significava muita coisa. Ela dizia isso a todos… Que seja!

– Isso só demonstra que você tem atitude – arrematou.

Não é bem assim.

– Poderia até ser esse o caso – admiti. – Mas não quer dizer que seja romântico. Eu só não lhe digo que foi planejado, porque eu não premeditei nada. Mas, na hora, eu usei todos os pedaços que pude lembrar.

– Pedaços? – ela estranhou. Enfim a palavra-chave!

– Pedaços – repeti.

E a hora da verdade:

– Eu não disse absolutamente nada daquilo. Eu simplesmente copiei de algum lugar. De algum filme, algum livro, novela. O que for! Só sei que as palavras que saíram da minha boca não foram idealizadas por mim!

  1. As facetas do sorrir

Dei um sorriso melancólico.

O ato de sorrir é realmente algo muito curioso. Versátil.

Ele pode ter várias conotações diferentes – além da já batida felicidade – dependendo do que você quer expressar.

Ira. Sarcasmo. Ironia. Desdém.

E, no meu caso, a melancolia.

O tipo de palavra que eu já gostava antes de saber o significado.

Eu a associava a imagem de uma melancia aberta.

Vai entender uma coisa dessas…

  1. O dono do destino

– Eu estava me sentindo o máximo naquela hora, sabe? – e nessa, ridículo – O senhor da minha própria vontade. O manipulador. Aquele capaz de ludibriar qualquer um só com a lábia.

Acho que a professorinha já estava vendo as coisas a minha maneira. Ela se apoiava num dos braços, me olhando séria. Todavia, não parecia me julgar. Realmente ainda era cedo para tal.

– Eu cheguei a imaginar todas as possibilidades para um desfecho dessa história – disse isso deveras envergonhado.

Eu as enumerei para ela.

  1. Menu de escolha

1ª)   A mais pretensiosa de todas: Imaginei que sairia dali sentindo o olhar dela em minhas costas (a parte instrumental da música estaria tocando nesse momento, ficando mais baixa a cada instante). Iam-se passar alguns dias, semanas ou, até mesmo, meses, e ela iria me ligar dizendo que não parava de pensar em mim,

2ª)   Eu sairia dali e simplesmente não a veria nunca mais (já no absoluto silêncio), e

3ª)    Sairia dali. Passar-se-ia muito tempo – o quanto fosse necessário – e nos encontraríamos por acaso em alguma dessas inúmeras ruas que existem pela cidade. Nos olharíamos por uns segundos. Ela sorriria mostrando os dentes. Eu seria mais contido, apenas curvando os lábios (e a música começaria de novo)

  1. E a vencedora é…

– Nem preciso dizer o que aconteceu, não acha? – disse, vislumbrando a pele branca da docente.

Ela não disse nada.

– Até esse momento, – segui – eu não estava atribulado. Entretanto o orgulho do meu feito de dois anos atrás já havia desaparecido. O problema começou quando eu encarei a verdade: não houve música.

Parei por um minuto e tentei ser mais objetivo. Ela já devia estar cansada de tantas metáforas.

– Nós nos encontramos e nos cumprimentamos. Falamos a velha frase “Nossa, quanto tempo!”. Fez-se um segundo de silêncio e ela perguntou sobre minha vida. Respondi simplesmente: “Normal”, e mudei o foco: “E você?” Ela me disse que estava bem, que havia entrado para a faculdade. Não tive vontade de perguntar: “Faculdade de quê?”. Eu fiquei sinceramente feliz só por saber o básico. Nos observamos por mais um tempo. Ela sorriu mais um pouco. Então ela olhou para o relógio e disse que tinha marcado de se encontrar tal hora com o namorado. Abraço. Beijo na bochecha. Cheiro bom de perfume. E se foi.

Silêncio.

Acho que causei a impressão errada na professorinha.

– E você ficou mexido com isso? – ela quis saber.

Dei de ombros.

– Não.

Continua na parte 3

 

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.

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