Ah, Vida Real – parte 1

Ah, Vida Real – parte 1

1.     Direto ao ponto

 

Pequenas coisas podem dizer muito a respeito de nossas vidas.

No meu caso, foi um episódio em particular que atraiu a minha atenção.

Não que seja algo definidor do meu caráter, de modo algum.

Mas me fez repensar algumas coisas.

Deixemos de lado toda a reflexão e vamos direto ao ponto.

Aonde tudo aconteceu.

 

2.    Quando aconteceu

 

Foi há alguns meses atrás.

Melhor dizendo, há dois anos…

Pensando bem, foi algo que ocorreu há dois anos, mas que só percebi suas implicações há alguns meses.

Estava em uma sala de aula vazia. As cadeiras desocupadas olhavam-me, cada uma em suas respectivas posições nas diversas fileiras.

Ouvia o silêncio e, de alguma maneira, aquilo me tranquilizava.

A sala onde me encontrava fica no final de um estacionamento comprido e retangular.

Sentado sobre a mesa do professor, via a noite aos poucos tomando seu lugar no céu, quando se fez notar o som de passos aproximando-se. Observei a entrada da sala até surgir no vão da porta a professora daquele dia.

 

3.    A professora

 

Não que a próxima informação seja indispensável para o desenrolar da trama, mas certos detalhes a enriquecem e tornam a imaginação do leitor mais agradável:

Essa professora é linda.

Simpática.

Engraçada.

Mas, agora, isso não tem relevância.

 

4.    Os cumprimentos

 

– Boa noite – disse ela, sorrindo.

– Boa noite – respondi-lhe da mesma forma.

Naquela hora, eu já havia feito a minha brilhante conclusão. E não estava nada feliz com isso. Porém, não quis deixar transparecer.

– Mais ninguém até agora? – ela perguntou.

A resposta era óbvia. Bastava que ela olhasse ao redor. Mas ela só queria manter uma linha de conversa.

– Não. Ninguém. – disse – Daqui a pouco chega mais gente.

Ela deu a volta na mesa e colocou sua bolsa sobre ela. Eu não saí dali e logo depois ela se aproximou e se sentou ao meu lado.

– Tudo bem? – indagou ela, me observando.

Será que ela tinha percebido alguma coisa na minha voz? Seria compreensível, visto que eu não sou bom em disfarçar certos sentimentos.

– Na verdade, não.

Para quê mentir? Eu queria dividir aquilo com alguém mesmo.

 

5.    Introdução

 

– O que houve? – ela quis saber. Seus olhos castanhos me observavam vivamente.

Com a maior franqueza, eu me apaixonaria por ela em outra circunstância.

Suspirei e deixei os ombros encolherem-se.

– Eu descobri que o mundo real é muito chato – disse tristemente.

– Por quê? – pareceu que ela não estranhou essa afirmação.

– Ah, é uma longa história – uma frase típica de quem não quer dar muita explicação.

Ela se ajeitou na mesa.

– Então, eu quero ouvir – disse com entusiasmo.

Achei a curiosidade dela indiscreta.

E encantadora.

 

6.    Desenvolvimento

 

– Bom, – comecei, olhando para os próprios pés – foi quando eu estava no último ano do segundo grau. No último dia de aula. Depois de ter tido até formatura e tudo. Estávamos, uma garota e eu, no pátio interno. Uma amiga só…

“Era daquele tipo de garota extrovertida que brinca com todo mundo, sabe? Ela era bem legal. E também bonita. Nada de muito extraordinário, mas o suficiente.

A escola já estava vazia. A maioria das outras turmas já havia sido liberada e o silêncio estava irritante. Foi aí que eu tive a ideia…

 

Parei por um segundo e dei uma olhadela para a professorinha. Só para ter certeza de que ela estava me acompanhando. Ela prestava a maior atenção.

 

– Estávamos sentados no encosto de um banco de cimento – prossegui – de costas para a maior parte do pátio. Então eu chamei por ela, baixinho:

“Sofia” (era esse o nome dela).

“Que foi?”, ela perguntou.

“Quero lhe pedir uma coisa”, falei.

“O quê?”

Nessa hora, confesso que fiquei um pouco nervoso.

“Me dá um beijo?”, disparei.

Ela só riu. Um riso curto. De surpresa.

“Um beijo? Por quê?”

Virei-me para olhá-la. Dei um sorriso malicioso.

“Bem, é o último dia de aula mesmo… Que mal faz?”

“A gente só é amigo”, ela disse isso com muita delicadeza.

“Eu sei, mas isso não vai estragar nossa amizade”.

Eu olhava bem dentro de seus olhos.

“Como não?”, ela perguntou. Notei que ela pensava se tratar de uma brincadeira da minha parte. Fui muito sincero com ela:

“A nossa amizade iria acabar de qualquer jeito”.

Ela se espantou um pouquinho.

“Vamos ser francos. É o convívio diário que nos aproxima. Depois que sairmos por aquele portão, será um para cada lado, seguindo sua vida normalmente. Podemos até manter contato no começo, mas com o tempo vamos nos afastar completamente. Até que reste apenas uma vaga lembrança”.

Foi nesse momento que me aproximei ainda mais de seu rosto e gentilmente passei os braços em volta de sua cintura. O sorriso provocante ainda em meus lábios. Puxando-a para mais perto, concluí meu argumento:

“Você não quer que ao menos essa lembrança seja algo especial?”

 

7.     Interrupção

 

– Não acredito que você tenha feito isso! – foi a primeira vez que a professora interrompeu-me, rindo jovialmente, incrédula. Já esperava por essa reação exatamente nesse momento da narrativa.

Para ela, eu era tímido.

Na realidade eu sou.

Contudo, certas coisas são mais fortes e intensas que esse estado de espírito.

– Pode parecer estranho contar que eu fiz isso. Mas eu fiz – disse rindo.

Porém, meu olhar quis se dirigir ao chão e o atravessou para muito longe, enquanto o sorriso desvanecia-se.

– Não ache que sou romântico por causa disso – murmurei, mais para mim do que para ela.

Ela só observou e eu entendi que devia prosseguir.

 

Continua na Parte 2

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.