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A Identidade Secreta dos Super-Heróis | Resenha

A Identidade Secreta dos Super-Heróis | Resenha

O mercado já está saturado de obras sobre super-heróis com as mais diversas abordagens. Seja na literatura, no cinema, na televisão ou mesmo nos games, essas figuras são exploradas sob diferentes ângulos, em alguns momentos mostrando seu lado mais humano, como nos filmes da Marvel, e em outros sua faceta mais obscura, seguindo a linha de The Boys. Baseado nisso, o escritor Brian J. Robb revisitou a origem desses personagens de outra forma, explorando sua evolução ao longo das décadas, e o resultado foi A Identidade Secreta dos Super-Heróis.

O livro começa fornecendo o contexto cultural antes de o primeiro super-herói ganhar as páginas das revistas em quadrinhos. A mitologia grega teve forte influência no processo criativo que originou esses personagens com habilidades sobre-humanas. Além disso, as figuras heroicas já existiam em revistas de ficção, as chamadas pulp fictions, e nos próprios quadrinhos. Estava tudo pronto para que o primeiro super-herói surgisse, só faltava o pontapé inicial. E quem tomou essa atitude foram os amigos Jerry Siegel e Joe Shuster. Assim, em 1938, nasceu o Superman.

A Identidade Secreta dos Super-Heróis nos mostra como o Homem-de-Aço abriu as portas para os outros heróis nos quadrinhos e, a partir daí, passamos pelas grandes eras da indústria das HQs: a primeira é a Era de Ouro, que pega parte da Grande Depressão em 1938 e vai até meados dos anos 1950. As histórias desse período exploravam temas como a corrupção, violência contra a mulher, abuso de poder e apresentava uma visão nacionalista devido à guerra.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, as pessoas começaram a perder interesse nos super e voltaram sua atenção para a ameaça atômica. Assim, as revistas investiram em personagens que ganharam seus poderes graças à radiação. Essa fase ficou conhecida como Era de Prata (de metade de 1950 até 1970). Nela, as figuras superpoderosas como o Homem-Aranha e os integrantes do Quarteto Fantástico se aproximaram das pessoas normais pois enfrentavam dilemas do dia a dia enquanto combatiam o crime. Também foi na Era de Prata que surgiu a Marvel e um de seus membros mais importantes: Stan Lee, sobre o qual o autor dedica um bom tempo para falar de suas contribuições para as HQs.

Depois de um tempo em declínio, os super-heróis dos quadrinhos renovaram suas forças na Era de Bronze (1970 até meados de 1980), onde as tramas ganharam consciência social e tratavam de temas delicados como o racismo e o preconceito em geral. Os X-men são o exemplo mais claro de nesse contexto. Nessa época, o público universitário era consumidor de boa parte das histórias em quadrinhos, o que contribuiu para o amadurecimento de seus personagens.

Por último vem a Era Moderna (metade de 1980 até hoje), a qual apresenta boa parte dos heróis da forma como os conhecemos hoje no cinema. Nessa fase, as revistas passaram a se destacar pelas narrativas complexas e adultas. Alguns dos melhores exemplos são O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, e Watchmen, de Alan Moore; sem contar o destaque para outros selos e roteiristas antes desconhecidos, como Neil Gaiman (Sandman) e Art Spiegelmen (Maus).

Podemos ver que a trajetória dos super-heróis é bem longa e nada sobreviveria por tanto tempo e por tantas gerações se não tivesse a capacidade de se reinventar e se adequar ao contexto social do momento. Em cada uma das Eras, os autores buscavam agradar e prender a atenção dos leitores falando de temas que eram relevantes para o período. Algumas ideias e personagens foram descartados ao longo do caminho e outras aceitas de melhor forma, dependendo da recepção do público.

O lado negativo disso é que a quantidade de personagens era tão grande que muita coisa se perdeu ou foi mal aproveitada. As linhas temporais e as diferentes origens dos mesmos heróis começaram a ficar confusas até mesmo para os editores e autores das revistas. Então alguns eventos editoriais surgiram para tentar organizar a casa, como as Guerras Secretas da Marvel e a Crise nas Infinitas Terras da DC.

As disputas internas também foram muitas. A briga pelos direitos sobre os personagens acabou muitas vezes em desentendimentos e injustiças com os criadores e colaboradores que não receberam o devido crédito por suas obras. Isso mostra que os bastidores dos quadrinhos escondem um lado negro tanto quanto seus heróis.

Devido à data de publicação do livro, alguns acontecimentos importantes ficaram de fora, como a Guerra Civil II dos quadrinhos (que comentamos no Leituracast 12) e as adaptações para os filmes Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato. Felizmente algumas notas de rodapé tentam atualizar os leitores até onde é possível para que a publicação acompanhe a evolução dos heróis no cinema.

A Identidade Secreta dos Super-Heróis nos apresenta aos heróis dos quadrinhos de uma forma que poucos conhecem, vistos do mundo real onde foram criados por pessoas reais, com defeitos e qualidades. Mas o que fica claro é o papel fundamental que esses personagens e suas histórias têm na sociedade ao longo das Eras e a sua capacidade quase infinita de se reinventarem.

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Sobre Mozer Dias

Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.